Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo

Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo

André Singer

Publicado em: Revista Novos Estudos, Ed. 85, Dezembro 2009.

Disponível em: http://novosestudos.uol.com.br/acervo/acervo_artigo.asp?idMateria=1356

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Análise muito interessante do comportamento eleitoral no Brasil durante o governo Lula.

Alguns comentários e questionamentos:

1) Interessante a ideia de que foi só na eleição de 2006 que houve uma polarização do eleitorado de acordo com a renda. Eu achava que a identificação de setores de mais baixa renda com candidatos mais de esquerda e de mais alta renda com os de direita era frequente nas eleições. O Prof. Limongi, da Ciência Política da USP, disse em uma aula que os dados eleitorais da cidade de São Paulo indicavam isso e que, se a pesquisa fosse feita da mesma forma em nível nacional, ele achava que os resultados seriam parecidos. Uma coisa é certa: era óbvio nos discursos eleitorais em 2006 que o Lula representava setores mais populares da sociedade e que o Alckmin representava a elite.

2) O conservadorismo popular seria tão genuíno assim, ou apenas um reflexo da influência da mídia sobre o senso comum e a opinião popular? Por que os pobres se preocupariam tanto com a ordem? Acho que isso só pode ser explicado pela influência de ideias conservadoras que se tornaram consenso dominante durante os anos 80 e 90. Talvez o aumento da escolaridade, ou algum outro fator, tenha reduzido a influência da mídia sobre a opinião dos mais pobres, o que pode ter mudado o caráter conservador da opinião popular. Isso faria com que houvesse uma falha na interpretação do André Singer. Enfim, acho que teria que se estudar melhor essa identificação dos mais pobres com a estabilidade e a ordem. Acho que esse é o ponto mais fraco do artigo.

3) Outro problema: se tomarmos em conta o artigo do Nelson Barbosa (no post abaixo), a política econômica do Lula começou ortodoxa, mas se tornou cada vez mais heterodoxa, ainda no final do primeiro mandato. Como isso se refletiria sobre essa vontade de estabilidade por parte dos mais pobres?

4) Interessante a crítica ao Chico de Oliveira: o Brasil se politizou durante o governo Lula, e ele agora realmente representa uma fração popular da sociedade.

5) Interessante também ver como uma iniciativa a partir do Estado pode ter um impacto tão grande na sociedade. Foi a partir dele que a mobilização popular ganhou importância crucial no jogo político do país. E a classe média conservadora se perdeu e ainda está tentando se encontrar.

6) Só falta voltar a nóia com o populismo, conceito criado pelos liberais (paulistas) para desqualificar governos com orientação popular.

7) Fica a questão: Conseguirá a esquerda (ou o PT) construir um projeto realmente popular, que dialogue e mobilize a parcela mais pobre da sociedade brasileira, sem passar pelo velho discurso de levar a consciência de classe aos trabalhadores, característico de uma certa leitura marxista?

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7 Responses to Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo

  1. Danilo disse:

    Grande Fatah!

    Parabéns pelo blog, espero que a gente possa dialogar por aqui já que não nos vemos com frequencia.

    Esse artigo do Singer é muito interessante mesmo, é a primeira vez que se fala em lulismo sem “chutismo” (é o que a gente vê na mídia). Falar “lulismo” só porque o Lula é um presidente popular me parece ou uma tentativa de desqualificação (lulismo=populismo) ou preguiça intelectual mesmo.

    Sobre o conservadorismo do eleitorado, essa interpretação dele já é clássica e está no doutorado dele (“esquerda e direita no eleitorado brasileiro”). A tese dele (controversa, por sinal) é de que a clivagem esq-dir no Brasil é diferente da europeia/ americana. Aqui não se discute nas bases de mais ou menos Estado, mas sim nas bases de ordem x desordem. É assim que ele explica porque o lula perdeu em 1989 e 1994: pobres e elite votando contra o barbudo revolucionário.

    Se me permite a propaganda, eu e o Sérgio fizemos um trabalho pra aula do Limongi tentando entender como o Lula ganhou em 2002… É tipo uma prévia do artigo do Singer (quanta humildade… rs).

    O link: http://chacombolachas.wordpress.com/2007/06/11/analise-das-distintas-teses-e-interpretacoes-para-o-desempenho-eleitoral-de-lula-e-do-partido-dos-trabalhadores-nas-eleicoes-presidenciais-de-1989-1994-1998-e-2002/

    Forte abraço!
    Danilo

  2. nodocuments disse:

    Danilo,
    Muito Obrigado pela contribuição. Também acho essa tese controversa, mas vou procurar ler a tese dele para entender melhor. Eu já sabia do trabalho de vocês, mas não tive tempo de ler. Valeu por lembrar.
    E agora seguimos no debate!
    Abraço

  3. Leonardo Fontes disse:

    Fatah,
    antes de tudo, parabéns pala iniciativa do blog, acho que esse é um passo importante que todos nós que nos interessamos por temas da contemporaneidade e que queremos contribuir para o debate temos que dar!

    Em relação ao artigo do Singer, não discordo da idéia de que os mais pobres no Brasil costumavam votar mais à direita, exemplos disso é o fato de a base de sustentação eleitoral da ditadurado e do Collor em 1990 ter sido o Nordeste, e do Malufismo em São Paulo ter sido a periferia (mas isso é só uma impressão que eu tenho, não conheço profundamente o debate acadêmico sobre comportamento eleitoral no Brasil). Contudo, me parece (novamente é uma análise superficial) que a chegada do PT ao governo de prefeituras, estados e à presidência têm alterado esse quadro, exemplo disso foi a votação da Marta em São Paulo nas regiões mais pobres e do próprio Lula em 2006 como o Singer mostra. Por outro lado, isso sempre gera uma reação da direita, meu maior temor é que essa reação reative velhas práticas eleitoreiras (e porque não sujas) que vão desde o que o Kassab fez em São Paulo até a compra de votos.

    Mas o mais interessante do artigo na minha opinião, é o fato de ele não ficar só focado no bolsa família pra analisar essa mudança de comportamento do eleitores como fazem alguns críticos tanto à esquerda quanto à direita do “Lulismo”. Ao incluir a importância de programas como o “Luz para todos” e principalmente da ampliação do crédito para pessoas de baixa renda nessa “coptação” eleitoral do Lula ele – talvez de forma implícita e não totalmente consciente – acaba por mostrar algo que é central no Brasil pós reformas neoliberais: a hegemonia é do capital financeiro e que ela vem ampliando progressivamente os grupos e classes que estão submetidos a esta hegemonia.

    No sentido Grasmciano do termo, a hegemonia pressupõe que as classes dominanates e dominandas ajam no mesmo sentido, o que neste caso significa o sentido rentista do capital financeiro tanto na produção quanto no consumo! Assim, a idéia de “hegemonia às avessas” do Chico de Oliveira é, na minha opinião totalmente descabida (tanto em termos conceitual quanto reais), pois o que o “operário” fez ao chegar ao poder não foi levar essa classe à posição hegemônica, mas sim contribuir para o aprofundamento da hegemonia de uma outra classe!

    Essas são as minhas impressões!
    Seguimos debatendo e lutando por um próximo governo do PT mais à esquerda e mais democrático!

    Abraço,
    Leo

    • nodocuments disse:

      Leo,
      Valeu.
      Em primeiro lugar, eu não acho estranho que os pobres votassem mais à direita, mas eu acho que os motivos disso devem ser melhor estudados. É por que os pobres querem distribuição com ordem? Por que eles se preocupam tanto com a ordem? Sugeri que talvez a influência da mídia possa fornecer essa resposta, e aí teríamos que entender a mudança da influência da mídia sobre o voto dos pobres.
      Mas discordo da sua análise. Por um lado, além do Bolsa Família e do aumento do crédito, tem o aumento do salário mínimo, que eu considero a medida de distribuição de renda mais importante do governo Lula. Por outro lado, o crédito é importante porque faz as pessoas consumirem mais, ou seja, aumenta a demanda efetiva (assim como o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo). Isso favorece a economia como um todo, em especial os setores industriais (é só ver como a indústria automobilísitica se favoreceu com o crédito à compre de carros), porque gera empregos. Não vejo a influência do capital financeiro na ampliação do crédito ao consumo. O capital financeiro está muito mais preocupado em assegurar uma taxa de juros alta, para garantir sua grande massa de lucros. Você teria que mostrar que a decisão de aumentar o crédito respondeu aos interesses do capital financeiro e não a outro tipo de interesses.
      Me parece que essa ênfase na hegemonia do capital financeiro é um exagero. Ou pelo menos não é algo único da “nova fase do capitalismo”, mas sim algo que sempre esteve presente. Mas aí ja partimos para a discussão de grandes interpretações sobre o capitalismo contemporâneo.
      Seguimos no debate.
      Um Abraço.

  4. […] até em pessoas de esquerda, com relação à crescente particpação do povo na política. O artigo do André Singer citado (o primeiro a tentar tratar do lulismo a partir de uma pesquisa séria) demonstra bem como o […]

  5. […] A história e seus ardis – O lulismo posto à prova em 2010 Ótimo texto do André Singer, que resume o artigo dele mesmo, já publicado aqui. […]

  6. […] de apoio ao Governo Lula, leia: Artigo de André Singer: Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo: https://nodocuments.wordpress.com/2010/03/10/raizes-sociais-e-ideologicas-do-lulismo/ Se você não puder ler os dois últimos artigos inteiros, leia, pelo menos, este artigo do André […]

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