Entrevista – Mos Def

http://www.maissoma.com/2010/3/11/definitivamente-mos-def

Thu: 03-11-10

+Entrevista . Definitivamente MOS DEF! Por Daniel Tamenpi

(Esta entrevista foi publicada na na +Soma 16/Mar-Abr 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)

“Você está ouvindo, mundo? Estão jogando com você. Estão te enganando. A Al-Qaeda não é o seu problema. O terrorismo não é realmente a questão, e todos os terroristas têm um emprego no governo.”

Por Daniel Tamenpi. Colaboração de Suemyra Shah . Fotos por Fernando Martins

O rapper e ator norte-americano Mos Def veio ao Bra sil em dezembro de 2009 para duas apresentações no Indie Hip-Hop, festival anual que acontece no SESC Santo André. Além dos shows, deu um rolê por festas tradicionais de São Paulo como a Chaka Hot Nightz, no clube Tapas. Bem à vontade, conversou com os presentes, rimou e cantou. Apesar da disposição geral do astro, porém, a produção do evento não tinha notícias animadoras à imprensa. Como parte do acordo para tocar no Brasil, Mos Def tinha feito  uma exigência: não conceder entrevistas. “Não insistam”, pedia a assessoria, de forma cordial mas definitiva. Sem esperanças nem expectativa de encontrá-lo, eu já havia me conformado em apenas vê-lo no palco pela primeira vez. Mas por sorte a maré mudou: uma semana antes dos shows, fui avisado de que o rapper faria uma única entrevista no Brasil, para a +Soma. O caminho foi longo, mas consegui falar com Mos Def a caminho do aeroporto, no seu último dia no Brasil. Em um bate-papo curto, mas marcante, ficou claro que ele não é um dos grandes ídolos do hip-hop na última década por acaso.

Mos Def, nascido Dante Terrel Smith-Bey, começou trabalhando em família. No início dos anos 1990, ao lado do irmão DCQ e da irmã Ces, formou o grupo Urban Thermo Dynamics. Mas foi só a partir de 96, quando participou de faixas em discos de Da Bush Babees e De La Soul, que seu nome começou a chamar atenção. Seu primeiro single, “Universal Magnetics” (1997), tornou-se um clássico instantâneo, elevando-o ao posto de promessa do gênero. Mas foi com Talib Kweli que Mos Def carimbou definitivamente seu nome no hall dos melhores MCs da década. A parceria dos dois no Blackstar, que rendeu o álbum homônimo lançado em 98, o colocou ao lado de Outkast e Lauryn Hill nas listas dos melhores álbuns de hip-hop do ano. O mesmo aconteceu com seu disco de estreia no ano seguinte, “Black On Both Sides” (Rawkus/Priority). Na companhia de bambas como DJ Premier, Q-Tip e Busta Rhymes, Mos Def alcançou a maturidade, atestada em faixas como a jazzistica “Umi Says”.

“Os pobres de toda parte se identificam. Eles têm noção de que ser pobre é uma merda. Mas também existe um certo orgulho na pobreza. Eu tenho orgulho de ter crescido pobre. Se você sobrevive a isso, é uma pessoa muito especial, tem algo único pra dar ao mundo. E eu faço parte disso. Tenho muito orgulho de ter sido pobre.”

Em 2000, outra aptidão do rapper chegou ao grande público, com sua estreia no cinema no filme “Bamboozled” (A Hora do Show, no Brasil), do diretor Spike Lee. A atuação faz parte da vida de Mos Def desde a adolescência, quando ele fazia pontas em séries de TV como “The Cosby Misteries” e “Here And Now”. Nos anos seguintes, ele fez pequenas participações em filmes como “A Ultima Ceia” e “Showtime”, até conseguir seu primeiro papel de destaque no romântico “Brown Sugar”, lançado em 2002. Desde então a carreira dramática de Mos Def disparou e ele ganhou papéis de destaque em filmes como “Uma Saída de Mestre”, “16 Quadras”, “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e o recente sucesso “Rebobine, Por Favor”.

Mas a música não ficou de lado por muito tempo. Em 2004, o rapper retornou com o disco “The New Danger” (Rawkus/Geffen), apresentando uma proposta musical diferente do anterior, indo em direção ao rock e ao blues. Contando com a participação em algumas faixas da banda Black Jack Johnson – que tinha em sua formação nomes da pesada como o baixista Doug Wimbish e o baterista Will Calhoun, ambos do Living Colour, além de Bernie Worrell, ex-tecladista do Parliament-Funkadelic e o guitarrista Dr. Know, do Bad Brains –, o disco causou uma certa estranheza no início, mas foi sendo aceito gradualmente pelos fãs. Porém, em 2006 veio o fraco “True Magic” (Geffen), álbum com história conturbada entre artista e gravadora – saiu em embalagem plástica, sem sequer uma capa. As músicas traziam o ótimo letrista de sempre, mas o conceito e a produção não estavam à altura. O rapper, então, anunciou seu quarto álbum, “The Ecstatic”, prevendo sem meias palavras que seria “um novo clássico”. Para endossar a promessa, Mos Def escalou um time de produtores que incluiu Madlib, J.Dilla, Oh No, Georgia Anne Mudrow e outros. Se é um clássico ou não só o tempo irá dizer, mas, para um ano como o de 2009, com poucos momentos espetaculares no hip-hop, “The Ecstatic” foi certamente um dos grandes destaques (ainda que esteja longe da obra-prima “Black On Both Sides”).

Foi com essa turnê que Mos Def desembarcou no Brasil, realizando o sonho dos milhares de fãs que esgotaram, em questão de dias, os ingressos para as duas apresentações. No bate-papo com o público, durante a abertura do festival, via-se uma pessoa de fácil trato, com falas pausadas e sorrisos largos para todas as perguntas feitas. Aquilo me animou – afinal, além de jornalista prestes a entrevistá-lo, eu era também parte de seu público.

A entrevista aconteceu no último momento possível. Na caótica noite de segunda, 7 de dezembro, caía o mundo em São Paulo – o que viraria rotina na cidade durante o verão. Mos Def falou comigo dentro da van, a caminho do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Começamos falando sobre o Blackstar, seu primeiro grande trabalho gravado, destacando a importância de todos os envolvidos no projeto. “Tenho muito orgulho de ter trabalhado no Blackstar”, ele lembrou. “Muitas pessoas no grupo, além dos produtores e de Kweli, tiveram uma responsabilidade grande pela qualidade da obra. O ótimo clima que rolou entre todos contribuiu para o resultado final.”

Nos últimos dez anos, Mos Def foi uma das figuras mais interessantes dentro do hip-hop. Seus discos trouxeram um estilo particular nas rimas e no flow, além de uma musicalidade nova, que incorporava influências variadas. Parte disse se deve ao fato de Mos Def ser também um instrumentista. “Eu toco bateria, baixo e teclado. Minha formação musical é bem diversificada porque meu pai é um cantor treinado no clássico, além de ser músico.” Ele lembra dos anos de adolescência: “Nessa época, eu já me apresentava com ele. Estudei música, mas, sinceramente, não era bom aluno”. A aplicação em sala de aula acabou não fazendo diferença para o mal, porque o rapper gravou vários instrumentos ele mesmo em seus discos. “Em cada um eu toco alguma coisa. Em ‘Casa Bey’ (faixa de “The Ecstatic”), por exemplo, toco o piano no fim da música. Quero tocar ainda mais no futuro.”

Sobre suas influências, Mos Def não destacou nenhum estilo em si. “Minha música é influenciada pela vida, não apenas por outros estilos musicais. A música é apenas uma expressão da vida, para mim. Em matéria de composição, às vezes eu estou tão envolvido no momento que não me recordo de como compus a música, mesmo depois de tê-la pronta. Elas se formam naturalmente. Essas tendem a ser as melhores.” Observo que essa naturalidade aparentemente contrasta com o comportamento de muitos rappers atuais, que repetem temas recorrentes em suas carreiras. Mos Def concorda com a afirmação, mas faz uma ressalva: “Não acho que seja ruim se repetir, mas algumas coisas não precisam ser repetidas. Todo mundo se repete, é normal. Mas certas coisas não merecem, sabe? E eu acho que é isso o que vem acontecendo.”

“Barack Obama é exatamente isso: um símbolo da esperança. Um símbolo! Como uma corrente de ouro é um símbolo de riqueza, mas não significa que seu dono seja rico. Uma corrente de ouro pode ser símbolo de breguice também. Estamos cansados de símbolos!”

Seu último disco é exatamente o oposto da repetição. The Ecstatic não tem produções óbvias e as letras não seguem as rimas habituais do rap americano atual. Mos Def se dedicou ao conceito desse trabalho durante dois anos, gerando grande expectativa nos fãs. “Meu novo disco criou expectativas que ignorei totalmente. Não dei a menor atenção a elas. Eu me importo muito com as pessoas, mas, sem querer soar egoísta, não faço música pra elas. Tenho que me sentir bem primeiro e, se isso acontecer, eu tenho certeza de que as pessoas vão sentir o mesmo. Acho que estou certo nesse ponto.”  A levar pela recepção do disco, ele realmente está certo. The Ecstatic foi considerado um dos melhores álbuns de hip-hop em 2009 por diversas revistas e sites especializados. A sonoridade com ares do Oriente Médio, presente na maioria das produções, foi objeto de atenção detalhada. As letras, que tratam de assuntos relacionados ao Afeganistão, à Guerra do Iraque e ao Islamismo, também foram bastante comentadas. Mas não para por aí. O álbum é também seu trabalho mais globalizado musicalmente, indo a territórios sonoros da música latina, incluindo uma faixa cantada em espanhol (“No Hay Nada Más”). A música brasileira é homenageada em “Casa Bey”, que traz um sample de “Casa Forte”, da Banda Black Rio. “O MV Bill me deu um CD da Banda Black Rio, e foi inacreditável quando escutei”, ele lembra. “Minha relação com a música brasileira já vem de um tempo. Conheci melhor pelo David Byrne, que me apresentou bastante coisa. Alguns dos meus artistas preferidos são Jorge Ben, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Flora Purim, Azymuth e Tim Maia”, completa. “The Ecstatic” foi ainda coroado com duas indicações ao Grammy: melhor álbum de rap, e melhor rap, com “Casa Bey”.

Saindo um pouco do lado musical, sabemos que Mos Def tem uma história de militância ligada ao hip-hop, com letras críticas ao governo americano. Como a parceria com o rapper peruano Immortal Techinque no single “Bin Laden”, lançado em 2004. Na música, que teve produção do Green Lantern, a dupla inocenta a eminência parda do terror mundial dos atentados de 11 de setembro, apontando como principais culpados a doutrina Reagan e George W. Bush. “Dollar Day (Katrina Clap)” , do disco True Magic (2006), faz duras críticas ao abandono a New Orleans pelo governo Bush depois do furacão que devastou a região em 2005. A faixa foi proibida nas rádios, além de não poder ser cantada ao vivo – o rapper chegou a ser preso quando desobedeceu a ordem, na noite do MTV Video Music Awards de 2006. Na ocasião, Mos Def estacionou um caminhão-guincho em frente ao Radio City Music Hall (local da premiação) e começou a cantar a música diante da multidão que rapidamente se formou. Ele foi preso durante a performance, apesar de ter consigo uma autorização judicial para a apresentação na rua. O porta-voz da polícia de Nova York justificou a prisão devido “às condições da multidão e da segurança de todos os envolvidos”. A cena foi gravada em vídeo e pode ser vista até hoje no Youtube.

Mos Def nasceu e foi criado em Bed-Stuy, região no centro do bairro do Brooklyn, em Nova York. Passou a infância e a adolescência nas Roosevelt Houses, conjuntos habitacionais gigantescos formados por prédios – conhecidos por lá como “projects”. Pedi uma comparação entre os projects de Bed-Stuy e as favelas do Brasil, já que o rapper conheceu a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. “A diferença entre os projects americanos e as favelas brasileiras é uma só: os primeiros estão acima da linha do Equador e as outras abaixo. Pobre é pobre em qualquer lugar. Existem algumas diferenças, mas favela é favela. Algumas mais confortáveis, se é que se pode dizer isso, outras nem tanto, mas os pobres de toda parte se identificam. Eles têm noção de que ser pobre é uma merda. Mas também existe um certo orgulho na pobreza. Eu tenho orgulho de ter crescido pobre. Se você sobrevive a isso, é uma pessoa muito especial, tem algo único pra dar ao mundo. E eu faço parte disso. Tenho muito orgulho de ter sido pobre.” Perguntei se já tinha passado por sua cabeça ter nascido no Brasil, e a resposta foi direta: “Não. Eu não queria ter nascido em nenhum outro lugar ou momento diferente do que nasci. Eu nasci no Brooklyn, Nova York, em 1973, o ano em que o hip-hop nasceu. Tenho muita, muita sorte! Mas eu amo o Brasil! É um ótimo país, com ótimas pessoas. E, se conseguir se livrar do preconceito racial, será um dos lugares mais fascinantes do mundo, até mais fascinante do que já é”, acrescenta, tocando diretamente em um dos grandes tabus da nossa auto-proclamada democracia racial.

“Eu me importo muito com as pessoas, mas, sem querer soar egoísta, não faço música pra elas. Tenho que me sentir bem primeiro e, se isso acontecer, eu tenho certeza de que as pessoas vão sentir o mesmo. Acho que estou certo nesse ponto.”

Mos Def não vê com bons olhos a valorização imobiliária recente em sua área e no Brooklyn em geral: “O Brooklyn está mudando muito. Pessoas com dinheiro estão comprando tudo, abrindo empresas e valorizando aquela área. Estão tentando tirar as pessoas de verdade de lá. Isso, além de influenciar minha música, me dá raiva e tristeza. Estamos tentando consertar essa situação para que o bairro seja para as pessoas de lá – não para as pessoas que estão ali de passagem, mas para as pessoas de verdade.” Nesse contexto de identidade negra e afirmação dos mais pobres, o assunto Obama não poderia ficar de fora, com toda a expectativa e o choque de realidade do seu primeiro ano de mandato. Comentei que o presidente americano era um símbolo de esperança no mundo, e fui interrompido: “Barack Obama é exatamente isso: um símbolo da esperança. Um símbolo! Como uma corrente de ouro é um símbolo de riqueza, mas não significa que seu dono seja rico. Uma corrente de ouro pode ser símbolo de breguice também. Estamos cansados de símbolos! O Obama tem que acabar com essa porra dessa guerra! É isso que ele precisa fazer. Ele precisa mostrar personalidade de verdade. Eu imagino o que ele pensaria sobre essa guerra se tivesse dois filhos adolescentes, em vez de duas filhas pequenas. O fato é que os velhos fazem as guerras para os jovens morrerem nela, e ele é um cara bonitão, que fica bem de terno, tem um sorriso radiante, mas isso não ofusca o fato de que ele está mandando jovens para morrer por alguma baboseira. Você está ouvindo, mundo? Estão jogando com você. Estão te enganando. A Al-Qaeda não é o seu problema. O terrorismo não é realmente a questão, e todos os terroristas têm um emprego no governo. Então é isso, cara. Pare com essa porra dessa guerra, foda-se todo o resto. Se ele continuar com isso, quer dizer que mentiu pra todo mundo, te enganou, te enrolou, é um merda. É isso.”

Mos Def ainda esbravejava contra o governo de seu país quando o motorista da van avisou que estávamos chegando ao aeroporto. O objetivo estava cumprido, mas não era nesse clima que eu gostaria de me despedir. Perguntei então sobre sua experiência com os shows de São Paulo e com o público brasileiro. “Eu me senti bem, me diverti muito”, ele respondeu de imediato, mudando o semblante. “Mas o mais importante é saber como as pessoas se sentiram, e muita gente disse que foi bom. Quando eu gosto e elas gostam, é perfeito. É um ótimo dia de trabalho. Eu adoraria voltar, significa muito pra mim estar tão longe de casa e me sentir em casa mesmo assim. Então eu sou muito, muito grato ao Brasil e a todas as pessoas que me apoiaram. Muito obrigado!” Que assim seja! Até a próxima.

Saiba Mais

mosdef.com

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