Santa Marta, a favela-outdoor

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Santa Marta, a favela-outdoor

por peruano última modificação 18/11/2009 09:21

Localizada no coração da zona sul, a mais midiática das comunidades tem sido utilizada, pelo governo estadual, como propaganda da política de “pacificação”

Leandro Uchoas
do Rio de Janeiro (RJ)

Na mais íngreme das favelas cariocas moram cerca de 6 mil pessoas – 0,1% dos cariocas. Jamais esteve entre as mais violentas da cidade, mas está localizada na beira da principal avenida de Botafogo, bairro central da zona sul (região rica do Rio de Janeiro).
Na história do morro Santa Marta, uma série de acontecimentos e iniciativas sempre a colocou no centro dos debates sobre violência na cidade. O governo estadual de Sérgio Cabral (PMDB) a elegeu como primeira a receber o muro de contenção construído para, oficialmente, separar a favela de áreas de vegetação, iniciativa condenada por diversas instâncias internacionais (90% da obra já estariam prontos).
Também foi pioneira na implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Ao se observar a propaganda da política de “pacificação”, fica claro: a favela é um outdoor usado pelo governo para dar publicidade à sua atuação.
“O Santa Marta é o laboratório. É a matriz da experiência. Eu não tenho dúvida de que ali vai dar certo, porque o Estado quer muito que dê. Há um investimento muito grande. Os quadros são muito novos, e há um acompanhamento muito fino do que está acontecendo. Em laboratório tudo funciona.
O problema é fora dele”, avalia Itamar Silva, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
A comunidade é chamada pelo governo de favela-modelo. “Não existe em lugar nenhum do mundo uma favela- modelo. Se é favela, não é modelo. Tiraram as drogas, e continuam as necessidades”, reclama o rapper Fiell.
Ocupada por 120 policiais em três postos de polícia, a pequena favela já recebeu banda larga gratuita e relógios de medição de energia. A capitã Priscila de Oliveira, coordenadora da UPP, vai ganhar da revista Veja Rio o prêmio Cidadão Carioca 2009. Há dois anos, o vencedor foi o secretário de segurança José Mariano Beltrame, o mesmo que coordena a polícia do mundo que mais mata e que mais morre.

Câmeras de vigilância
Recentemente, a reclamação principal da comunidade foi a instalação de nove câmeras de vigilância. Co mo o muro de contenção e a UPP, o equipamento foi instalado sem que os moradores fossem ouvidos. Souberam pela televisão. Pela arquitetura local e geografia do morro, fica evidente que as câmeras têm acesso a imagens do interior das casas.
O grupo Eco organizou três debates sobre o tema. “Em qualquer lugar do mundo hoje se discute câmera e vigilância. Mas no Santa Marta não se pode discutir nada. Qual o objetivo do Estado? É apenas responder a um apelo da sociedade, ou é para exercer controle e mostrar à sociedade que há uma limpeza na zona sul?”, protesta Itamar.
O morro começou a ficar mais conhecido em meados dos anos 1980, com a guerra entre os traficantes Zaca e Cabeludo. O filme Duas semanas no Santa Marta ganhou certa projeção. Dos anos 1990 em diante, muitas iniciativas colocaram o morro Santa Marta no centro do debate sobre a violência.
O documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Salles, que versava essencialmente sobre certa insolubilidade intrínseca à violência carioca, foi filmado no local. O traficante Marcinho VP, nascido e criado no morro, destacouse pelo carisma e discurso politizado. Já o livro Abusado, de Caco Barcelos, abordou a história de Marcinho e da comunidade de Santa Marta, sendo sucesso de vendas. Por sua vez, o cantor estadunidense Michael Jackson gravou na favela imagens do clip “They don’t care about us”.

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Comentário:
Sem dúvida a política de pacificação é melhor que a antiga política de segurança pública. Mas ela não resolve o problema e também apresenta problemas, além de ser muito difícil de acreditar que ela seja viável em todas as favelas da cidade.
Por que são só favelas da Zona Sul e da Zona Oeste que estão no planejamento de pacificação?
Teria algo a ver com a Copa e as Olimpíadas?
Por que, após a pacificação, a população não é consultada antes de se tomarem medidas como a instalação de câmeras?
Para que o muro no Santa Marta, se ela não avançou sobre a mata nos últimos 10 anos?
Onde está o resto dos investimentos que viriam após a pacificação?
Ouvi relatos de moradores de que alguns policiais pacificadores ameaçaram moradores e que, para se realizar qualquer evento na favela, é preciso antes obter autorização do comando da UPP.
Não me parece que haja uma real solução a vista.
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