Gordon Matta-Clark: desfazer o espaço

http://www.mam.org.br/2008/portugues/exposicaoDetalhes.aspx?id=91

Gordon Matta-Clark: desfazer o espaço

Confira abaixo a entrevista de Jane Crawford, viúva do artista Matta-Clark

De lápis em punho
Entrevista com Jane Crawford

Jane Crawford, viúva de Gordon Matta-Clark, declara em entrevista a descoberta de um obra do artista em Santiago, acompanhada pela curadoria do MAM, e relembra algumas experiências ao lado do artista

Gordon Matta-Clark: desfazer o espaço é uma exposição abrangente, que tem o objetivo de iluminar o legado do artista. Qual aspecto da exposição você destacaria?
A exposição Matta-Clark no MAM apresenta alguns dos trabalhos mais teatrais e populares pelos quais Gordon se tornou conhecido. Espero, entretanto, que o público reserve algum tempo para apreciar algumas das obras menores e mais difíceis.  Desde o primeiro trabalho, uma ponte de cordas suspensa sobre um desfiladeiro em Ithaca, Nova York, até as últimas obras inacabadas, estruturas suspensas por apoios infláveis, Gordon esteve preocupado em conceber novos tipos de espaços habitáveis que estimulassem a vida comunitária. Ele compreendeu que, frente a esse enorme problema, a própria noção de moradia precisava ser completamente modificada e reavaliada. Gordon era conhecido pelo pensamento inovador. Mesmo em seus projetos mais delirantes, como a anarquitetura ou Basket Housing, pode-se enxergar a seriedade da questão dos espaços e seus usos. Os projetos Fake Estates, Jacob’s Ladder e Sky Hook abordaram os graves problemas dos custos e da disponibilidade do espaço urbano. Espero que as pessoas saiam da exposição dispostas a enxergar os problemas sociais de maneira nova e criativa.

Como era a vida no SoHo na década de 1970? Atualmente, como está a vida artística ?
Em 1969, depois de graduar-se na Cornell University, Gordon voltou para Nova York, cuja prefeitura, devido à frágil situação econômica, havia mudado as leis de zoneamento urbano para permitir que artistas ocupassem com seus estúdios os armazéns abandonados ao sul de Houston Street, área conhecida como SoHo. Artistas, bailarinos, poetas e músicos foram atraídos pelos vastos espaços industriais. Nenhum de nós tinha dinheiro, o que era um importante denominador comum. Os artistas trabalhavam na renovação dos edifícios do SoHoBy day, dirigindo táxis ou em qualquer um das centenas de empregos disponíveis. Havia festas quase todo fim-de-semana, e as pessoas migravam de uma festa para a seguinte. Como havia poucas pessoas morando no SoHo – cerca de trezentas – todo mundo se conhecia. Vivíamos bem, se não como foras-da-lei, como pessoas à margem da sociedade. Era muito diferente do SoHo dos dias de hoje. Os artistas de então não tinham esperanças de ficarem ricos. Vivíamos confortavelmente em condições que hoje seriam consideradas muito precárias.
No início dos anos 1980, o dinheiro e a fama haviam escolhido alguns artistas, ignorando outros. A arte voltou aos suportes mais tradicionais da pintura e da escultura, abrigando-se em espaços institucionais. A Guerra do Vietnã havia terminado, um novo governo havia assumido e não havia mais um inimigo comum. Com novos mercados na Europa e nos Estados Unidos, o mundo da arte tornou-se comercialmente orientado e menos idealista, e a vida coletiva e democrática ficou no passado. Atualmente, os preços dos imóveis no SoHo e em toda Manhattan são exorbitantes. Os artistas migraram para o Brooklyn, onde uma nova comunidade artística anseia um dia ser convidada a expor em alguma das muitas e luxuosas galerias do sofisticado bairro de Chelsea.

Poderia contar algo sobre a história das Fake Estates?
Sendo ele mesmo um artista pobre, Gordon se identificava totalmente com os sem-teto, a principal diferença sendo seu diploma em arquitetura pela Cornell University. Na década de 1970, estávamos acostumados a ver sem-teto morando em caixas de papelão, mas isso deixava Gordon revoltado. O sofrimento deles tornou-se sua inspiração. Por meio de sua amiga Alanna Heiss, Gordon soube que um leilão de estranhos pedaços de terrenos, remanescentes das mudanças de zoneamento, iria acontecer no bairro de Queens, em Nova York. Essas pequenas nesgas de terra, muitas das quais eram completamente inacessíveis e/ou de dimensões e formas inaproveitáveis, estavam sendo vendidas por preços entre 25 e 75 dólares cada. Com o apoio financeiro do amigo Manfred Hecht, Gordon em pouco tempo realizou seu Sonho Americano. Tornou-se membro da nobreza fundiária ao comprar quinze terrenos. Uma dessas “propriedades” tinha 25 cm de largura e se estendia por toda a lateral de um corredor de passagem, dispondo-se de modo a obrigar os vizinhos a invadi-la para que pudessem estacionar em suas próprias garagens. Outra, completamente isolada, era um quadrado com cerca de 60 cm de lado localizado na fronteira de quatro edifícios. Outra dessas “propriedades” se localizava na interseção de três edifícios, e era tão inacessível que Gordon jamais conseguiu vê-la. À exceção desta última, Gordon documentou exaustivamente a grama, o cimento e o entulho de cada terreno com séries de fotografias. Estas, junto com as escrituras e as plantas dos terrenos, formaram as Reality Properties: Fake Estates. Ironicamente, Gordon não tinha dinheiro para pagar o imposto territorial urbano (cerca de 5 dólares cada). Ele encheu uma caixa de papelão com todas as escrituras, fotografias, plantas etc. e a entregou a seu amigo Norman Fisher, pedindo que ele agrupasse as fotografias documentais “do jeito que quisesse”. Cinco anos depois, quando ambos já estavam mortos, o projeto me foi devolvido: uma caixa de papelão contendo uma enorme confusão de fotos soltas e documentos legais. Separar e organizar os diferentes projetos foi como montar um quebra-cabeças. Depois de montá-los ainda foi necessário associá-los a cada terreno; uma tarefa perigosa, pois era preciso invadir propriedades particulares no Queens e em Staten Island. Nosso amigo, o artista Charles Simmonds, que costumava construir espécies de vilarejos pré-históricos nas paredes dos edifícios abandonados do Lower East Side, ofereceu-se para construir num dos terrenos de Gordon. Assim como a Flag-pole House, esse projeto nunca foi realizado.
Em 2005, a revista Cabinet organizou uma exposição dos Fake Estates no Queens Museum, em Nova York. A exposição incluía um divertido passeio por algumas das propriedades mais acessíveis. Elas permanecem como eram em 1973.

Como foi o processo de trabalho na obra Office Baroque, em Antuérpia, na Bélgica?
Embora Office Baroque, projeto realizado em Antuérpia, em 1977, fosse um dos mais bonitos projetos de Gordon, ele não teve tempo suficiente para apreciar o trabalho. Talvez isso tenha se devido à agenda muito ocupada e a sua morte precoce, mas ele apenas enxergava as falhas da obra, que originalmente pretendia recortar o exterior do edifício.  O projeto também não recebeu a prometida aprovação da comissão de patrimônio da prefeitura de Antuérpia.
Localizado no centro velho da cidade, quase na esquina da praça Grote Markt e sua bela catedral medieval, em frente ao castelo Het Steen (algumas das principais atrações turísticas de Antuérpia), o edifício em questão estava em péssimas condições. Antuérpia, como se sabe, foi uma das grandes cidades portuárias da Europa, mas na segunda metade do século XX o turismo tornou-se uma atividade mais importante. A companhia que ocupava o edifício havia falido, “quebrado”. Brincando com o título do trabalho, Gordon então combinou a ideia de uma companhia quebrada [broke] com uma homenagem à glória barroca de Antuérpia na Flandres do século XVII.
Inicialmente, em nome de Gordon e de alguns outros artistas, entrei em contato com Flor Bex, do Internationaal Cultureel Centrum [Centro de Cultura Internacional]. Flor então encontrou um edifício condenado e convidou Gordon a propor um projeto, que previa um corte distante da esquina do edifício, deixando aparente uma esfera formada por um quarto do edifício de seis andares. A comissão de patrimônio da prefeitura entendeu que o corte no exterior do prédio ameaçava o tráfego, propondo um corte interno. Gordon propôs um grande número de configurações diferentes. A comissão não gostou de nenhuma delas. Deprimidos com a recorrente falta de imaginação dos membros da comissão, fomos nos consolar com uma caneca de cerveja num bar próximo. A ideia definitiva de Gordon surgiu com a visão dos dois anéis de umidade formados por nossas canecas numa bolacha de papelão. Sobrepondo-se, os anéis formavam uma espécie de barco. A comissão disse que analisaria a nova proposta e divulgaria a decisão após um recesso de duas semanas. Frustrado, Gordon decidiu fazer a intervenção enquanto o membros da comissão estavam fora da cidade. Ajudei-o a mapear os locais do cortes e Flor contratou dois assistentes para o trabalho de serragem.
O edifício estava abandonado havia vários anos. Os hippies que então viajavam pela Europa invadindo prédios abandonados sabiam de sua existência, e a polícia estava acostumada a expulsá-los de lá. Certa vez, quando Gordon e eu estávamos trabalhando bem tarde da noite, olhamos em volta e vimos que estávamos cercados de policiais com as armas nas mãos. Embora tivéssemos permissão para estar lá, não podíamos explicar a situação porque não falávamos flamengo e era muito tarde para entrar em contato com as autoridades da cidade. Ainda me lembro de Gordon, num gesto enfático, saltando na minha frente e brandindo um lápis contra as armas. Fomos presos e colocados na cadeia. Passei a noite ao lado de prostitutas, e Gordon junto de bêbados e ladrões. Na manhã seguinte, Flor Bex chegou e, bastante constrangido, pagou nossa fiança.
Gordon ia até o edifício todos os dias, e trabalhou muito. Ele voltava tão sujo para o hotel que nem parecia um ser humano. Algum tempo depois, quando a comissão voltou do recesso, o projeto já estava pronto e Gordon deixara a cidade. Como os hippies, amigos como Laurie Anderson e Joseph Kosuth tiveram de invadir o edifício para conseguir ver o trabalho.
Foi um trabalho belo e complexo. Partindo da ideia da forma de barco criada pela intersecção de dois arcos, a obra se desenvolveu à medida em que arquitetura dos andares mudava. Depois da morte de Gordon, em 1978, Flor Bex descobriu que o proprietário queria demolir o edifício para construir um luxuoso prédio de apartamentos. Decidimos tentar salvá-lo, talvez para criar um museu em torno dele. Pedi a amigos que escrevessem ao governo da Bélgica comprometendo-se a oferecer obras de arte para o museu se o edifício fosse poupado. Todos os meus amigos se ofereceram generosamente para doar trabalhos e mobilizaram outros amigos. A ação cresceu até incluir várias centenas de artistas, de Isamu Noguichi e Robert Rauschenberg a Julian Schnabel. Havia até mesmo artistas de países sobre os quais nunca tinha ouvido falar. Simultaneamente, Flor Bex reuniu a quantia necessária para fazer uma oferta ao proprietário. Esta, infelizmente, foi recusada, e o edifício foi demolido em 1980.

Além da documentação sobre as obras de Matta-Clark (filmes, séries fotográficas, colagens, cadernos etc.), ainda é possível percorrer um “circuito Matta-Clark” em Nova York, apreciando vestígios físicos de suas intervenções arquitetônicas?
Às vezes parecia que uma máquina de demolição seguia Gordon aonde ele fosse. Um a um, todos os edifícios que continham intervenções foram destruídos. O próprio restaurante Food não existe mais. As exposições de Matta-Clark hoje se baseiam em filmes, vídeos, desenhos e fotografias que documentam os cortes. Quase todos os fragmentos de edifícios, como os de Splitting: Four Corners e Bingo, estão nas coleções dos principais museus dos Estados Unidos.
Fiquei muito feliz com a descoberta recente de uma das últimas intervenções remanescentes, no Museo Nacional de Bellas Artes (MNBA), em Santiago, Chile. Em 1971, Gordon viajou a Santiago com Jeffrey Lew, esperando encontrar seu pai, Roberto Matta, e os parentes chilenos que haviam hospedado sua família no fim dos anos 1940. Seu pai estava lá para preparar uma exposição em homenagem à posse do presidente Salvador Allende. Ao chegar ao museu, Gordon e Jeffrey souberam que Matta já havia partido, mas conseguiram convencer o diretor do museu, Nemesio Antunez, a permitir que fizessem intervenções no espaço.
Novembro passado, enquanto preparava uma reconstrução de Garbage Wall no MNBA – primeira sede desta exposição –, o artista Federico Assler, cuja exposição de esculturas ocupava o andar de cima do museu, contou-me que havia conhecido Gordon durante o trabalho de 1971. Assler disse-me que o então diretor, sr. Antunez, o havia chamado até o museu porque alguém estava destruindo as paredes. Quando ele chegou, viu Gordon cortando as paredes da escadaria e Jeffrey Lew cortando uma fatia do pavimento em torno do salão principal. Assler teve a gentileza de mostrar-me o lugar do corte de Gordon, e percebeu que ele havia sido coberto com vários painéis de madeira. Olhando para o teto, pude ver onde Gordon havia feito uma abertura no duto de ventilação, vários andares acima. Felipe Chaimovich, curador do MAM, e Gwendolyn Owens, curadora do arquivo Matta-Clark no Canadian Centre for Architecture, gentilmente me acompanharam na escalada pelo (imundo) duto, confirmando o que víamos: a primeira intervenção arquitetônica de Gordon ainda existe! Para restaurá-la, bastaria remover os painéis de madeira e colocar espelhos nas posições originalmente previstas. Dei o nome de Claraboya a esse trabalho porque ele reúne todos os aclamados elementos dos cortes tardios, conduzindo a luz através de um duto de ventilação até uma obscura escadaria.
David Zwirner amavelmente forneceu um valor para o seguro, e escrevi um certificado de autenticidade em nome do Espólio de Gordon Matta-Clark. Agora, além dos grandes espaços expositivos do MNBA, como a Sala Matta e a Sala Antunez, existe a Claraboia Matta-Clark.

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