A Guerra das Pesquisas

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A guerra das pesquisas

14/04/2010 12:03:07

Leandro Fortes

Levantamentos dissonantes do Datafolha e do Vox Populi geram uma disputa entre tucanos e petistas

A cizânia instalou-se, primeiro, em consequência da pesquisa CNT/Sensus, divulgada em 1º de fevereiro. Nela, a então ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência da República, começava a esboçar uma reação eleitoral esperada quase com aflição no Palácio do Planalto: foi de 23,5%, registrados em uma pesquisa anterior, de novembro de 2009, para 27,8% das preferências do eleitorado. José Serra, do PSDB, então governador de São Paulo, apareceu com 33,2%, em empate técnico com a petista.

Embora o crescimento da candidata governista fosse esperado até pela oposição, a CNT/Sensus foi a primeira de uma sequência de levantamentos que acabou por catalisar uma briga inédita entre institutos, a três meses do início formal da campanha eleitoral de 2010. No fim de março, a discussão sobre o real tamanho do crescimento de Dilma colocou em pé de guerra dois dos mais importantes deles, o Vox Populi, de Minas Gerais, e o Datafolha, de São Paulo, ambos metidos num jogo de acusações veladas e insinuações de manipulação de dados e resultados.

Na origem do desentendimento está a pesquisa Datafolha de 27 de março, divulgada três dias antes de José Serra renunciar ao governo de São Paulo para se lançar candidato à sucessão de Lula, na qual o tucano apareceu em franca ascensão eleitoral. Até aquele momento, a tendência de crescimento da ex-ministra havia se confirmado por outra pesquisa, a do Ibope, em 21 de março, na qual ela atingiu 30% das intenções de voto contra 35% de Serra. Em dezembro do ano passado, na última pesquisa Ibope, a diferença entre Serra e Dilma era de 21 pontos porcentuais.­ O tucano tinha 38% e Dilma, 17%.

Esse resultado do Ibope não esvaziou apenas o discurso tucano. O presidente do instituto, Carlos Augusto Montenegro, viu cair por terra seus prognósticos. Em abril de 2009, em diversas entrevistas, Montenegro previu uma vitória fácil de Serra, a ponto de ter apostado em um teto de 15%, no máximo, para Dilma nas pesquisas. Era até onde ele imaginava que a transferência de votos de Lula ia alcançar. “A partir daí, será difícil conquistar cada ponto a mais”, preconizou. Agora, se esquiva dizendo que “ainda é muito cedo para futurologia”.

Ao destoar das tendências de crescimento da candidatura petista apontadas pelas pesquisas Sensus e Ibope, o Datafolha gerou uma série de reações de estranheza, sobretudo entre os governistas, mas também entre os demais institutos de pesquisa. Ligado à Folha de S.Paulo, o crescimento apontado do tucano (de 32% para 36%), com variação marginal de Dilma (de 28% para 27%), destoa da tendência geral.
Até aquele momento, Serra vivia sob pressão dos aliados, que clamavam por um anúncio imediato da candidatura, enquanto o governador paulista seguia em sua estratégia de adiar ao máximo a decisão. Além do mais, os tucanos viviam o constrangimento da recusa do mineiro Aécio Neves em compor uma sonhada chapa puro-sangue. O PSDB, portanto, administrava notícias desfavoráveis, enquanto Dilma surfava no apoio de Lula e nos bons resultados da economia. Não por acaso, o resultado do Data­folha serviu para uma blitzkrieg sobre Aécio. Aliados próximos dizem que o governador mineiro, ante os números animadores, cogitou voltar atrás na decisão de concorrer ao Senado. O ímpeto teria sido aplacado pelos resultados do Vox Populi na semana seguinte.

A rodada de pesquisas do Datafolha, divulgada na véspera da saída de Serra do governo, foi, portanto, sob medida. De uma só tacada, fortaleceu o discurso do candidato tucano numa hora crucial da campanha, deu fôlego à oposição e jogou um balde de água fria nas expectativas dos governistas. Por essa razão, a pesquisa do Vox Populi, encomendada pela ­Rede Bandeirantes e divulgada uma semana depois, em 3 de abril, acabou por se tornar um contraponto desconfortável em muitos sentidos. Primeiro, por reafirmar a tendência de crescimento de Dilma, que subiu 3 pontos porcentuais e chegou a 31%. Depois, por mostrar um Serra estagnado em 34% e não em ascensão.

O veneno para os tucanos não está na visão macro dos porcentuais de intenção de voto, que no momento são apenas a ponta do iceberg. O dado mais relevante das pesquisas é a relação entre os que se apresentam como eleitores de Serra, mas estão dispostos a votar no candidato apoiado pelo presidente Lula. Ainda que a banda na imprensa simpática à candidatura tucana chegue a dar conselhos à candidata governista para que não insista na comparação entre o atual governo e a administração FHC (desconsiderando um dado da realidade de que toda eleição é, em si, plebiscitária), o fato é que o comparativo será inevitável, tanto na disputa federal quanto nas estaduais. Vide a eleição em São Paulo, onde o PSDB se apresenta com largas chances de manter uma hegemonia de 20 anos.

Parêntese: estranhamente em relação ao pleito paulista, a mídia não clama por alternância de poder a bem da democracia nem considera um equívoco que o partido da situação baseie sua estratégia eleitoral em um discurso de continuidade.

De volta às pesquisas. Do total de entrevistados, 708 disseram que vão votar em Serra. Desses, no entanto, 34% (23% dos eleitores declarados do tucano) também afirmaram a intenção de votar no candidato apontado por Lula. Na mesma pesquisa, na qual 603 cidadãos anunciaram o voto em Dilma, somente 1% (3% dos eleitores declarados da petista) admite virar a casaca e votar na oposição. “É aí que reside­ a crônica da morte anunciada da campanha de José Serra”, vaticina o cientista político Murillo de Aragão, dono da consultoria Arko Advice, que está longe de ser um analista “petista” ou “chapa-branca”. “É óbvio que a candidata do PT vai subir na esteira da popularidade do governo.”

Aragão refere-se ao que ele chama de “conjugação inédita” de três circunstâncias atuais que certamente beneficiam a candidata governista, segundo todas as pesquisas: o nível de satisfação do brasileiro com a vida; a popularidade do presidente Lula, na casa dos 80%, no último ano de mandato (a de Fernando Henrique Cardoso era 35%, em 2002); e a aprovação do governo, em 76%. “São três fatores inexoráveis que vão trabalhar a ­favor da candidata do governo.”

Observador atento do processo eleitoral, Aragão também estranhou a nota dissonante entoada pelo Datafolha às vésperas da despedida de José Serra do governo de São Paulo. Segundo ele, “o pedaço de realidade” demonstrado pela pesquisa não coincidiu com a tendência dos demais institutos, sem que nenhum fato novo pudesse justificar essa mudança. “Não acredito que o Datafolha, que tem ligação com a Folha de S.Paulo, vá correr o risco de manipular resultados e se expor ao mercado”, diz o cientista político. “Seria ridículo e lamentável.”

Curiosamente, foi a Folha de S.Paulo que se adiantou no jogo de suspeitas e atacou primeiro o Vox Populi. Em duas notas na coluna “Painel”, publicada exatamente no dia em que a pesquisa Vox Populi­ foi divulgada, o jornal colocou sob suspeita a metodologia utilizada pelo instituto mineiro. A suspeita residia na alteração da ordem de apresentação de temas do questionário relativos à menção espontânea, conhecimento dos candidatos e menção estimulada ao nome de cada um deles. “Esse tipo de procedimento é conhecido por distorcer resultados”, dizia a nota , sem citar os números da pesquisa.

O Vox Populi reagiu. Dois dias depois, em entrevista ao site Rede Brasil Atual, João Francisco Meira, diretor-presidente do instituto, disparou: “Quem tem de se explicar é o Datafolha”. Segundo Meira, os levantamentos do instituto são feitos da mesma maneira há anos. A discrepância entre metodologias, diz ele, poderia ser reduzida com disposição de diálogo entre os institutos. “É uma discussão que deveria estar no plano técnico, mas, por uma opção editorial, dão outro rumo”, afirmou.

Para o presidente do Vox Populi, é pouco producente brigar com um instituto que faz parte de um grupo de comunicação influente. “Enviamos uma nota ainda no sábado (3 de abril) para o jornal (Folha de S.Paulo), mas nenhuma linha foi publicada. Queria saber se o manual de jornalismo que eles dizem respeitar está sendo respeitado neste caso”, ironizou.

A briga entre os institutos de pesquisa ainda vai longe, mas dificilmente se manterá no protagonismo da discussão política daqui para a frente. Mesmo os especialistas do setor apontam esses atritos iniciais como previsíveis, até porque essa é, no momento, a única guerra possível. A partir das convenções partidárias, no meio do ano, e o início, de fato, da campanha eleitoral, a tendência natural das pesquisas é a de consolidar resultados parecidos, com variações mínimas, tanto para mais como para menos. Politicamente, outro sobressalto como o da recente pesquisa Datafolha, avalia um executivo da área, poderá resultar em um desastre de credibilidade para o instituto.

Por isso, até para errar, diz o mesmo especialista, é melhor errarem todos juntos. Foi o que aconteceu, por exemplo, nas eleições para o governo da Bahia, em 2006. À época, o candidato do DEM, Paulo Souto, apoiado pelo então senador Antonio Carlos Magalhães, era apontado como vencedor, ainda no primeiro turno, por todos os institutos de pesquisa. Com o apoio da vasta capilaridade do PMDB baiano e da militância partidária no estado, o candidato do PT, Jaques Wagner, não só deu uma rasteira na turma de ACM como em todos os prognósticos negativos anunciados pelos institutos de pesquisa. Foi eleito no primeiro turno.
Embora não seja um sentimento declarado, grande parte dos cientistas políticos e técnicos ligados ao setor de pesquisa eleitoral têm, atualmente, somente uma expectativa real: ser o primeiro a divulgar a pesquisa na qual Dilma vai aparecer na frente de Serra. Essa ansiedade tem sido alvo da atenção de Aragão, cada dia mais debruçado sobre essa situação, rara e paradoxal, de uma eleição na qual o favorito, no caso, a favorita, segundo ele, não expressa seu favoritismo nas pesquisas. “Quem lidera não é o favorito, por isso o monitoramento desse processo tornou-se muito importante. Caso o favorito estivesse liderando as pesquisas, não haveria esse debate entre os institutos de pesquisa.”

Cauteloso, até porque observa o duelo Vox Populi/Datafolha de camarote, o cientista político Ricardo Guedes, do Instituto Sensus, não estranha o protagonismo das pesquisas no noticiário nem a polêmica em torno dos números. “O Brasil vive uma circunstância semelhante à dos Estados Unidos, onde 75% das matérias jornalísticas, em época de eleição, são pautadas por pesquisas eleitorais.” Segundo ele, o País tem excelência no ramo e o importante é adotar metodologias e questionários cujos resultados captem, de fato, a vontade do eleitor.

Desavenças íntimas:
Como se deu o confronto. Por Mauricio Dias

O número de pesquisas feitas neste início de 2010, ano de eleição presidencial, já superou em muito
o dos anos anteriores, pós-ditadura.

Essa procura por diagnósticos e prognósticos eleitorais dá a medida do interesse pela questão e mobiliza também a competição no mercado onde há quatro fortes competidores: o cinquentenário Ibope, com sede no Rio, que virou sinônimo de pesquisa, os institutos Vox Populi e Sensus, com base em Minas Gerais, e o mais novato deles, o Datafolha, vinculado ao jornal Folha de S.Paulo. São razões suficientes para produzir conflitos. E produziram.

A reunião da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (Abep), no dia 22 de março, em São Paulo, transcorria bem com debates entre Marcia Cavallari (Ibope), Ricardo Guedes (Sensus), Mauro Paulino (Datafolha), João Francisco Meira (Vox Populi) e o cientista político Marcus Figueiredo (Iuperj). Quase ao fim, a mediadora do encontro perguntou a Cavallari quem ganharia a eleição.

A representante do Ibope disse, sem pestanejar, que o cenário atual favorecia a candidata do PT, Dilma Rousseff. A resposta à pergunta foi oferecida a todos os debatedores. Guedes concordou com Cavallari. Paulino titubeou, mas não discordou da avaliação. Figueiredo engrossou o coro. Meira concordou e ofereceu um dado suplementar: “Não é impossível Dilma ganhar no primeiro turno”.

No dia seguinte, Mauro Paulino fez uma circular a todos os sócios da Abep e aos participantes
do encontro do dia anterior. Ele comunicava seus “desconfortos em relação ao evento”. “Sou frontalmente contrário à postura assumida por João Francisco Meira no evento de ontem, assim como a de Carlos Augusto Montenegro em diversas entrevistas, ambos contrapondo previsões de caráter político e não técnico.”
Ele não esconde o desagrado pelo prognóstico de Meira, do Vox Populi. Lamentou que não pode expor publicamente sua “oposição a esse tipo de postura que, creio, não contribui para que nossos detratores se municiem de argumentos justos e generalizadores, como pude constatar desde o encerramento do evento”. Paulino se colocou como único santo numa casa suspeita.

Meira deu resposta áspera. “Não aceito que me digam como devo ou não devo atuar profissionalmente, em particular no meu campo de especialidade, a não ser com argumentos provenientes do paradigma científico corrente”, disse na circular de resposta aos ataques de Paulino. E o desafiou para um debate. Paulino calou-se.

O problema é que o Datafolha estava em campo e divulgou sua pesquisa antes de Serra entrar oficialmente na disputa presidencial.

Os bons ventos sopraram.

O Datafolha fez o tucanato sorrir. Paulino reagiu de maneira violenta. Enfiou na coluna Painel, da Folha de S.Paulo, duas notas lançando dúvidas sobre a pesquisa Vox Populi. O foco era uma pergunta feita para orientar o entrevistador sobre o que devia aceitar como resposta, a indicar conhecimento da biografia
do candidato. Em relação a todos.

Alheio a esse debate, o cientista político Marcus Figueiredo, considerado o maior especialista em pesquisas no País, faz uma afirmação: “Diagnóstico e prognóstico são irmãos siameses”. E faz uma comparação para
os leigos: “De nada adiantaria o diagnóstico de um médico se junto não houvesse também um prognóstico para o paciente”.

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Comentário:

Interessante análise dessa guerra entre os intitutos de pesquisa.

O Serra conseguiu perder pontos nas pesquisas após o lançamento oficial de sua candidatura.

E gostei bastante do parêntese: no governo de São Paulo ninguém reclama de alternância política!

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