Bogota Change

O Documentário é claramente favorável aos dois prefeitos, Antanas Mockus e Henrique Peñalosa.

A primeira cena, sobre como era Bogotá em 1994 parece que é um erro, pois aquilo não poderia ter ocorrido em 1994, como mostram os comentários no YouTube (a maior evidência é que em 1994 ninguém em um ônibus na periferia teria celulares).

Mas, voltando ao assunto, eu tenho minhas dúvidas quanto à mudança que eles representam.

Não conheço muito sobre a política na Colômbia, nem sobre o que eles fizeram no governo de Bogotá, e o documentário ajuda a ter uma ideia, mas como é muito a favor deles, pode ser suspeito.

Posso estar errado, mas há diversos pequenos indícios ao longo do documentário de que eles não representam realmente um projeto de transformação da sociedade colombiana.

No começo do filme, eles mostram protestos estudantis na Universidad Nacional de Colombia, onde Mockus era Reitor, e rotulam os estudantes como rebeldes das FARC e anarquistas. Ele quer dizer que os estudantes universitários que protestavam eram rebeldes das FARC?

O fato dele ter montado um governo apenas com intelectuais não significa nada. Não é porque são intelectuais que necessariamente eles serão bons, nem melhores que outros que não o são. Vide o caso brasileiro.

O foco dele no governo era resolver os problemas morais, cívicos e de educação do povo (no sentido de educação no convívio cotidiano). Isso pode ser bom, mas não pode ser a prioridade em uma cidade desigual latinoamericana. O trânsito, o respeito, o lixo no chão, etc. são preocupações, principalmente, da classe média, mas que não se comparam com os problemas que as pessoas pobres vivem.

O combate à corrupção também é importante, mas, novamente, não é algo que represente uma mudança substantiva em sociedades desiguais.

A ideia de reduzir as mortes é muito boa, assim como a campanha pelo desarmamento. Mas fazer isso com uma medida de fechar os bares e baladas às 1h da manhã simplesmente não resolve os verdadeiros problemas que levam às altas taxas de mortalidade. É uma medida extremamente moralista. O modelo é o “cenoura”, como o cara diz, que é o careta. É como se o centro problema fosse que as pessoas têm comportamentos incorretos, impuros, como beber, fumar e sair à noite. É apenas um moralismo conservador, que não resolve nada.

Depois tem aquela cena em que ele se reune com um empresário líder de um grupo paramilitar, como exemplo de tolerância. Mas não aparece ele falando com ninguém das FARC. Quando eles falam do desarmamento, mostra ele em uma passeata contra a violência, na qual se pode ver um faixa que diz “FARC terrorista”. Ou seja, parece que a tolerância só vale para um dos lados.

O filme defende que as medidas que ele tomou foram boas porque permitiram que Bogotá recuperasse a possibilidade de financiamento internacional, que seria aúnica forma da cidade poder resolver seus problemas. Mas isso só é necessário em um contexto de política econômica neoliberal, em que o Estado não pode investir, pois isso é considerado prejudicial. E a ideia de pedir para os ricos doarem dinheiro em vez de aumentar a tributação sobre eles me parece ingênua e ineficaz.

E é engraçada a hora em que o melhor amigo dele diz que começou a ter que reduzir sua liberdade para governar no segundo mandato e mostra uma imagem dele ao lado do Hugo Chávez.

Aliás, a relação dele com a mãe é uma coisa meio bizarra. Assim como a imagem de uma santa, ou freira na sala do amigo dele, não sei se é uma estátua, ou um cartaz, mas aprece um fantasma… Bizarro!

Depois vem o Peñalosa com um governo formado por empresários. Empresários são muito menos confiáveis que intelectuais. É interessante como nenhum dos dois, que supostamente representariam uma grande mudança política, montou um governo com forças populares, ou com líderes de movimentos sociais.

A demolição do Cartucho parece ser apenas mais um projeto de gentrificação do centro da cidade, nada de novo em relação às grandes cidades no mundo. As pessoas que moravam lá são rotuladas de vândalos e criminosos. E é claro que se revoltaram contra sua remoção, o que demonstra uma falta de diálogo com a população pobre. Aí tem aquela Secretária de Espaços Públicos, que parece uma socialite, dizendo que as pessoas não querem espaços públicos. É claro, a culpa é do povo, que é ignorante e não entende o que estamos fazendo!

A briga com o Country Club já é mais interessante, mas não fica claro se deu certo ou não.

A ênfase no transporte público, essa sim é uma política interessante.

E a política que me parece mais importante de todas as que são mostradas é a extensão da eletricidade, da água e do saneamento básico para todas as residências na cidade. Isso sim é uma política transformadora. Assim como a compra de terrenos ao redor da cidade para evitar a especulação imobiliária.

O Antanas Mockus agora é condidato à presidência, contra o candidato do Uribe, Juan Manuel Santos, e parece que é o favorito.

Obviamente ele é bem melhor que o candidato do Uribe, o que não é muito difícil

Mas me parece que ele representa um projeto de mudança excêntrico, moralista e conservador, que não é popular, nem de esquerda.

Mas é difícil esperar um projeto popular e de esquerda com força na Colômbia. Só o fato de quase todos falarem em inglês no documentário já mostra que a relação com os Estados Unidos é muito forte.

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