Notas sobre o debate da TV Record

Ótima análise sobre o debate dos candidatos a Presidente na Record.

Concordo em especial com a parte do Plínio.

O PSOL parece, mais uma vez, se perder nas duas contradições que aparecem quando se candidatam à Presidência.

Por um lado, não se decidem se estão se candidatando apenas para marcar posição e colocar em debate os temas realmente importantes ou se estão entrando para disputar, ou seja, se estão de fato entrando no jogo político (e com isso assumindo a lógica de disputa do poder).

Por outro lado, às vezes defendem uma sociedade utópica distante da nossa realidade e às vezes defendem coisas para serem de fato implantadas no mundo real atual.

Entre essas duas contradições, o PSOL se perde e acaba não colaborando para um fortalecimento do campo progressita nas eleições. E isso faz com que o discurso de que eles são realmente diferentes, são superiores moralmente, etc. apareça como isso mesmo, apenas um discurso.

Abaixo seguem os vídeos do debate.

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http://www.idelberavelar.com/archives/2010/09/notas_sobre_o_debate_da_tv_record.php

segunda-feira, 27 de setembro 2010

Notas sobre o debate da TV Record

O debate de ontem à noite, na TV Record, mostrou quão equivocados estavam os estrategistas tucanos que imaginavam que José Serra daria surras de argumentação em Dilma Rousseff nos confrontos ao vivo. Bastou aparecer uma equipe de jornalistas que não faz entrevista combinada para que Serra perdesse a compostura e, mais uma vez, saísse reclamando das perguntas que lhe foram feitas. Creio que é possível discutir se a maior vencedora do debate foi Dilma Rousseff ou Marina Silva. Mas acho que dificilmente um tucano acreditaria, de boa fé, que José Serra ganhou pontos ontem na TV Record. Também acredito que nenhum tucano de boa fé diria que a TV Record favoreceu Dilma. Ela também enfrentou perguntas questionadoras e duras. A diferença é que Serra também teve que enfrentá-las. Dilma está mais que acostumada a isso. Serra, não.

O debate da Record foi o mais importante até agora, por motivos óbvios. Ele teve lugar em rede nacional de TV, chegou a marcar 14 pontos de audiência (a média total do programa foi 9) e aconteceu uma semana antes da eleição. Na minha avaliação, Serra foi muito mal, Plínio fez um papel bisonho, Marina mostrou uma melhora considerável em relação aos debates anteriores (e pode ter ganhado pontos de quem já decidiu não votar em Dilma ou Serra) e a candidata do PT, encarando tarefa difícil, saiu-se muito bem. Como o empate lhe favorece e ela claramente prevaleceu nos dois embates diretos com a outra figura de destaque da noite, Marina, o campo dilmista comemorou vitória, a meu modo de ver, com razão.

O debate teve três grandes momentos de sacode-Iaiá: um de Marina em Plínio, outro de Ana Paula Padrão em Serra, o terceiro de Dilma em Marina. Estes eu achei que foram os três sacode-Iaiá incontestáveis, de claros nocautes sem apelação. No primeiro, Marina lembrou a Plínio o seu abuso dos rótulos. Falou firme e com altivez acerca do respeito ao outro. O recado foi dado de maneira claríssima e, pela própria reação da plateia, ficou nítido o nocaute. No segundo, Ana Paula Padrão lembrou a Serra o uso da imagem de Lula e a desesperada insistência do candidato do PSDB em esconder Fernando Henrique. Para piorar a situação de Serra, Ana Paula mencionou a recente declaração de FHC, feita no exterior, de que a vitória de Dilma já estaria garantida. A resposta do candidato misturou ataques à jornalista, coisa que é bem do seu feitio (já terá pedido a cabeça dela à Record?), com algumas frases que devem ter feito a equipe de Dilma vibrar: acusações ao PT de ser “ingrato” com Fernando Henrique. A acusação pode até ser verdadeira. É fato que existem setores do petismo que se recusam a dar a FHC o seu quinhão de méritos na estabilização da economia. Mas a veracidade da acusação não faz com que ela deixe de ser, eleitoralmente, um tiro no pé. Do ponto de vista do PT, quanto mais o nome de FHC for mencionado, melhor. Sim, é injusto. Quem disse que política tem a ver com justiça?

O terceiro sacode-Iaiá foi categórico e ocorreu no único momento em que Marina decidiu repetir a cantilena da qual havia abusado no debate anterior: a retórica udenista sobre a corrupção. Ao interpelar Dilma a respeito do caso de nepotismo na Casa Civil, ouviu a resposta de que a investigação estava sendo feita e que tanto em 2005, quando Dilma assumiu o cargo, como agora, à raiz do caso Erenice, ela tomara medidas para coibir os malfeitos. Marina replicou que era inaceitável que isso se repetisse e que pelo jeito as medidas não estavam surtindo efeito. Com certeza, não esperava a tréplica que veio: Dilma lembrou que tomou as mesmas medidas da própria Marina quando vieram à tona casos de corrupção no Ministério do Meio Ambiente comandado por ela. Lembrou-lhe, com elegância, que ninguém tem monopólio sobre a moral. De forma implícita, nocauteou o argumento tantas vezes usado por Marina nesta campanha, o de que ela supostamente seria mais limpa ou ética que o governo do PT – do qual ela fez parte durante sete anos e que só resolveu abandonar às vésperas da eleição.

Os camaradas do PSOL sabem do meu respeito por e de minha interlocução com o partido. Inclusive, a partir de algumas conversas com psolistas no Twitter, quero oferecer o espaço do Biscoito, a partir de novembro, para que façamos uma ampla discussão sobre os rumos do partido. Poderíamos armá-la a partir de um texto meu e dois ou três textos de militantes do partido que queiram contribuir, publicando todos os textos num mesmo post e, a partir daí, usando a caixa de comentários para a conversa. Esta é uma promessa do blog, caso interesse, é evidente.

No entanto, o meu respeito não me impede de dizer que o papel de Plínio ontem foi grotesco, bisonho.Esqueceu-se de que ele não saiu do PT quando estouraram casos de corrupção, mas quando perdeu a eleição para presidente do partido. Mostrou estar desinformado sobre o ProUni. Chamou Dilma de Marina. Teve a oportunidade de uma tréplica e não a usou, pois não sabia o que estava acontecendo. Falou da União Soviética como se ela existisse. Fez uma infantil correlação entre o aumento das investigações sobre a corrupção e um suposto aumento da própria, como se o Brasil nunca tivesse tido um Engavetador-Geral da Repúbilca. Repetiu a cantilena sobre salário mínimo de R$ 2.000, 10% do PIB para a Educação e uma série de outras promessas pouco factíveis, respondendo, quando perguntado sobre de onde sairia o dinheiro, com o chavão da ruptura com os banqueiros—sem nos dizer o que faria o Brasil em estado de isolamento ante o sistema financeiro internacional.

Vejamos como se comportam os jornalistas da TV Globo no próximo debate, o último. Para os que gostam de contrapor, às críticas à parcialidade da Globo, alusões a uma suposta parcialidade da Record para o lado oposto, fica o lembrete: ontem, todo mundo encarou perguntas duras dos jornalistas. Mas só Serra saiu reclamando delas.

Escrito por Idelber às 16:48

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