Arquitetura da Exclusão – Frente 3 de Fevereiro e Afrofuturismo

Documentário sobre as novas políticas de segurança pública nas favelas do Rio de Janeiro.

As intervenções foram parte do projeto Pedregulho.

O curta foi feito pelo Edital Nós na Tela, do Ministério da Cultura, e ficou em segundo lugar no Prêmio Nós na Tela.

Segue abaixo o discurso de agradecimento do Prêmio Nós na Tela.

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Discurso de agradecimento do prêmio “Nós na Tela”

São Paulo, 21 de Outubro de 2010

Agradecemos a todos que ajudaram neste processo.

É importante este prêmio para nós e para a produção audiovisual pois o que estamos fazendo é uma outra forma de pensar e criar no campo audiovisual.

A começar pela dissolução da verticalidade extrema da figura da direção. Pensamos a estrutura de produção de maneira horizontal, sem a figura central e autoritária do diretor. Isso porque fomos formados por outra dinâmica e lutamos para que permaneça assim mesmo diante das nossos impérios subjetivos que, a todo momento, querem se impôr e se afirmar acima. Fazemos uma batalha contra nós mesmos e contra a própria idéia de unicidade do coletivo. Uma constante dinâmica de fuga do que somos para o que podemos ser.

Neste sentido também, outra ruptura com a forma de fazer filmes está na ausência de uma metodologia fixa. Pensar a produção audiovisual apartir do planejamento rígido e metódico é apenas uma das possibilidades de produção. Uma possibilidade ligada a um tempo histórico específico. Hoje, em nossa geração, pulsa uma maneira de fazer filmes que não está baseada na relação tempo e custo de produção, mas antes numa força intensiva de produção. Ou seja, o que nos importa e nos estrutura enquanto prática é uma rígida prontidão aos fluxos que atravessam os encontros nesta prática de produção. Nunca tivemos roteiro para fazer nenhum filme. Nunca tivemos um longa série de planos de filmagem a priori. Mas sim, sempre estivemos muito atento a que forças nos atraem, aas forças gravitacionais do nosso campo de investigação-ação.

Estamos diante de cada passo como se fossemos reiniciar todo processo. E isso nos exigi uma dedicação integral ao processo. Algo como o trabalhador contemporâneo que busca a alta performance em uma total fusão entre a vida pessoal e trabalho. Um trabalhador 24 horas por dia. Mas a diferença está que em função do que se faz isso: para o encontro ou o para a imposição? para a diferença ou para a uniformidade? para ser o que nunca fomos ou para reiterar o que nos projetam ser?

Isto nos leva a outro ponto de singularidade em relação ao modelo de produção audiovisual dominante: não existimos como “nós” em contraposição a “eles”. Não temos “objeto de estudo” – uma maneira de pensar e fazer ainda hoje tão sorrateiramente presente. Somos quem estuda e quem é estudado. Tentamos nos entender ao tentar entender. Somos o arqueiro, o arco e o alvo. Somos fluxos de transformação e criação em encontro com outros fluxos de transformação.

Assim, as ações que construimos no filme não são apenas ativismo mas antes uma estratégia de fusão, um dispositivo de potencialização do encontro que possa nos retirar de posições confortáveis de “sei o que sou” para nos jogar – todos nós – diante de uma possibilidade outra do outro e de mim. As “perguntas-ações” fora de contexto: “o Haiti é aqui? e em um miléssimo de segundo invisível a rainha da bateria e nós nos perdemos juntos, em um momento depois agem as forças reativas para recolocar as coisas no seu lugar…

Na discussão aqui sobre os filmes discutiu-se sobre aspectos técnicos. Discussão válida, claro. Mas penso que a pergunta que nos fazemos, a todo momento, mesmo em silêncio, é sobre que mundos podemos criar em nossas produções. Que mundos possíveis se abrem diante e atrás dos nossos passos? Que buracos e pontos de fuga são cavados nos muros? O que não existe ainda mas já existe em possibilidade? O que se torna mais possível quando abraçamos este possível?

Nosso olhar é para este invisível. Afinal a lente está a busca do que não se vê.

Por uma produção audiovisual do invisível!

Pela descontrução do mundo visível!

Afinal tudo o que fazemos é política do impossível.

E para finalizar, toda esta proposição sobre uma nova maneira de fazer filmes é uma intervenção institucional. É uma criação pensada apartir da nossa condição neste sistema de poderes institucionais. E portanto deve ter a potência de romper este mesmo sistema de engesamento. Somos o problema e solução ao campo institicional! Somos piratas e mendigos, videntes e daytrades!

Estamos diante de um novo paradigma estético e talvez não será neste tempo o reconhecimento desta transformação. Talvez não hoje nos percebamos o quão distante estamos do modelo de produção audiovisual dominante. Mas isso borbulha aqui em todas as partes! Daqui a décadas poderemos repensar nosso tempo através de nossa criação. Estamos dançando numa revolução!

Afrofuturismo! Frente 3 de Fevereiro!

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3 Responses to Arquitetura da Exclusão – Frente 3 de Fevereiro e Afrofuturismo

  1. […] Clique aqui para ir ao site do colega Fatah, que também participou da produção deste curta. […]

  2. Tomas Rotta disse:

    Fala Fatah,

    Muito bom este curta que você produziu. Coloquei um post sobre ele no Marx21 também, para ajudar na divulgação:

    http://marx21.com/2010/11/07/o-haiti-e-aqui/

    grande abraço!
    Tomas

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