A Candidatura de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL)

O PSOL tinha um papel importante nestas eleições. Tratava-se de fortalecer o campo da esquerda no Brasil, fazendo críticas para puxar o governo mais para a esquerda e contribuindo para derrotar os projetos conservadores da direita. Por não ter compromissos com a vitória e por não estar no governo, poderia mostrar os reais problemas do país e o que seria necessário para resolvê-los, dentro de uma perspectiva de esquerda.

Porém, infelizmente, não foi isso que aconteceu.

De início, o pertido viveu uma forte disputa interna entre o grupo da Heloisa Helena, presidenta do Partido, e o do Plínio. A primeira era a favor de uma aliança com a Marina Silva, enquanto o segundo defendia uma candidatura própria. O partido, corretamente, decidiu pela candidatura própria do Plínio. O grupo da Heloisa Helena chegou a tirar o Site do PSOL do ar para prejudicar a realização da Conferência Nacional do Partido. Além disso, a Heloisa Helena declarou que apoiava a Marina Silva, apesar de seu partido, do qual é presidenta, ter candidato próprio.

Durante a campanha, a posição do Plínio foi a de enfatizar que não havia diferenças entre nenhuma das outras 3 candidaturas. Em especial, dizer que tanto o Serra quanto a Dilma representavam um projeto neoliberal. Isto, em si, já é uma posição bem complicada, pois uma coisa é dizer que nenhuma das outras candidaturas propõem o rompimento com o sistema capitalista, outra coisa completamente diferente é dizer que as 3 são igualmente ruins e que dá na mesma qualquer uma delas que ganhasse. Em primeiro lugar, essa é uma posição que despolitiza, pois apaga as distinções políticas entre os três projetos, que são substanciais. Como disse o Safatle em ótima fala em um ato na USP (que coloco abaixo), as distinções são um elemento essencial da política. É preciso diferenciar entre capitalismo e neoliberalismo. O neoliberalismo é um tipo de política dentro do capitalismo, e é um tipo de política mais desfavorável aos trabalhadores, pois é mais concentradora de renda e menos focada no emprego. Em segundo lugar, é uma posição irresponsável com a maioria da população pobre, que vai sofrer diretamente as consequências das diferentes políticas implementadas pelos diferentes candidatos.

No plano das propostas, o Plínio e o PSOL se perderam em duas contradições fundamentais, que eles não conseguem resolver desde a sua criaçã.

Por um lado, não se decidem se estão se candidatando apenas para marcar posição e colocar em debate os temas realmente importantes ou se estão entrando para disputar, ou seja, se estão de fato entrando no jogo político (e com isso assumindo a lógica de disputa do poder).

Por outro lado, às vezes defendem uma sociedade utópica distante da nossa realidade e às vezes defendem coisas para serem de fato implantadas no mundo real atual.

Ao não se definir claramente qual é sua estratégia dentro dessas duas contradições, o projeto político fica confuso e vazio. E, com isso, o PSOL não consegue cumprir o papel importante que teria nas eleições, o de fortalecer o campo da esquerda no país.

Além disso, há dois outros problemas mais graves na posição do PSOL.

O primeiro é a ideia de que a esquerda (obviamente, representada por eles) é moralmente superior a tudo mais. De que o PSOL é diferente de todos os outros partidos tradicionais, pois representa uma forma de fazer política diferente, programática, ética e limpa. Um partido que não se corrompe, nem se vende ao jogo do poder, etc. Pois bem, o problema dessa posição é que, em primeiro lugar, ela é falsa. O PSOL é um partido como qualquer outro e se move dentro do jogo do poder da mesma foram que todos os outros. É só ver como se comportam todas correntes que disputam entre si dentro do partido. Não há nenhuma razão para se achar que seria diferente caso chegasse ao poder. E não tem problema eles se comportarem assim, o que não dá é se comportar assim e manter um discurso de que atua de forma diferente, isso é hipocrisia. Em segundo lugar, esse história de dizer que a esquerda é diferente em termos morais só serve para justificar que se façam coisas incorretas, pois, se é por um bem maior, uma moral superior, tudo é justificável. Em terceiro lugar, essa ideia impede a política na prática, pois qualquer concessão é um desvio moral. Daí as acusações comuns dentro da esquerda de que fulano se vendeu, é um traidor da causa, se corrompeu, etc. Para se ter uma posição de esquerda consistente é útil é necessário se acentuar que a diferença da esquerda não é moral, é política! A esquerda é melhor não porque representa uma moral superior, mas porque representa um projeto político que beneficia a mioria da população, que gera uma sociedade mais igualitária, mais justa, etc.

O segundo, que está ligado ao primeiro, é o vanguardismo paternalista no seu pior sentido. O discurso do Plínio é marcado fundamentalmente pela ideia de que o povo é alienado, não tem consciência política e não sabe decidir o que é melhor para ele mesmo. Daí a ênfase excessiva de que o papel do PSOL na eleição é levar a conscientização para o povo. Isso significa que não se reconhece o povo como agente de sua próprio história. A vanguarda do PSOL está muito mais preparada e sabe o que é melhor para o povo muito melhor do que ele mesmo. Isso é puro preconceito. Talvez seja por isso mesmo que o PSOL não seja um partido popular, de massas, seja apenas um partido de intelectuais de classe média alta. O que fez do PT um partido singular foi que, em sua criação, ele conseguiu reunir todos os movimentos sociais mais relevantes do país, com o movimento sindical, as comunidades eclesiais de base e os intelectuais de esquerda, todos juntos em um mesmo projeto político democrático. No PT, os movimentos falavam por si, se autorepresentavam. O PSOL já começou sem os movimentos sociais e ainda acha que deve falar em nome do povo. O maior exemplo desse vanguardismo foi um Twit do Plínio durante um dos debates do segundo turno:

@pliniodearruda: “Quando a realidade evidenciar o que o povo não tem condições de entender agora, entenderá o que foi dito por mim no debate do 1ª turno”

O descolamento do Plínio com relação à grande maioria do povo trabalhador no Brasil ficou claro com a baixa votação do Plínio (menos de 1% dos votos válidos) e quando, no segundo turno, o Plínio defendeu o voto nulo. Até uma boa parte do PSOL optou pelo voto crítico na Dilma. E o cúmulo foi quando o Plínio, após a eleição, declarou que o Serra representava a repressão e a Dilma a cooptação e que, para a esquerda, a repressão era melhor do que a cooptação. Isso é, no mínimo, de mal gosto, quando a candidata em questão foi presa e torturada pela ditadura. Mas é um absurdo afirmar isso, em todos os sentidos. Até porque não é verdade, ou será que ele esqueceu dos anos 90? A repressão foi fortíssima e a esquerda se desarticulou totalmente.

Além disso, a principal crítica que ele faz à Dilma é que ela é uma desconhecida. Bom, se essa é a grande crítica da esquerda, é porque o projeto político dela deve ser de esquerda, pois só resta criticar a candidata enquanto indivíduo. E isso ainda é totalmente falso, ele pode até não conhecer ela, mas ela tem uma história na esquerda (luta contra a ditadura, militante do PDT, etc.), tem uma história na vida pública (Secretária em governo estadual e Ministra por 8 anos) e, mais ainda, foi uma das principais responsáveis pelo sucesso do governo Lula. Não dá pra dizer que ela é uma desconhecida. E mesmo que fosse, qual é o grande problema de ser desconhecido?!

Ao seguir esse caminho, o PSOL só beneficia a direita. Ele o faz quando vota no Congresso contra o governo só porque é oposição, mesmo que o poejto seja bom, quando, nos debates, não deixa clara a diferença entre um projeto neoliberal e um projeto mais inclusor, etc.

Esperamos que o PSOL se reavalie e passe a cumprir um papel que realmente beneficia a esquerda no Brasil.

Abaixo algumas matérias que explicitam meus argumentos.

Os dois primeiros são sobre as tretas internas do PSOL.

O terceiro é o vídeo da fala do Safatle.

O quarto é o manifesto do Plínio depois do primeiro turno.

O quinto é uma entrevista com o Plínio.

E o último é a entrevista em que ele afirma que o Serra seria preferível para a esquerda.

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http://portalimprensa.uol.com.br/portal/ultimas_noticias/2010/03/26/imprensa34677.shtml

Publicado em: 26/03/2010 19:04

Site do PSOL sai do ar por discordâncias entre a cúpula do partido

Por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA

ALSP
Heloisa Helena

Desde a madrugada da última quinta-feira (25), o site do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) está fora do ar por conta de desentendimentos entre a Presidência Nacional da legenda e integrantes da diretoria.

Comunicado assinado por Afrânio Bopprè, secretário geral do PSOL, e Edson Miagusko, secretário de Comunicação, acusa o ex-responsável técnico pelo site, Haldor Omar, de mudar o controle da página, modificar senhas e invadir o e-mail da Secretaria Geral, “a revelia das instâncias partidárias”.

De acordo com a nota, a Secretaria de Comunicação do partido teria descoberto que o site fora retirado do ar quando exigiu satisfações à empresa responsável pela hospedagem da página. O provedor informou, então, que a hospedagem tinha sido transferida para outra empresa a pedido de Omar.

A manobra, segundo o comunicado, seria parte de estratégia para inviabilizar a Conferência Nacional do Partido, marcada para os dias 10 e 11 de abril, que determinará o candidato do PSOL à Presidência da República. Três nomes são cotados para representar a legenda no pleito, sendo o deputado federal Babá, o presidente do PSOL de Goiás, Martiniano Cavalcante, e o deputado federal Plínio de Arruda Sampaio.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Omar informou que agiu a pedido da presidente nacional do PSOL, Heloísa Helena, e em acordo com o regimento do partido, que assegura à Presidência o controle sobre a página.

“Não invadi nem alterei, isso não é verdade, está tudo documentado no registro do procedimento. Fiz isso a pedido de um setor do PSOL, que solicitou que eu fizesse a transferência técnica para o seu controle. Não foi feita de forma arbitrária, fui contratado para isso”, disse, acrescentando que “nenhuma conta de e-mail foi violada”.

Omar, que é técnico em informática, declarou que pedirá aos responsáveis pela divulgação do comunicado uma retratação pública, caso contrário moverá ação por calúnia e difamação, uma vez que tal propaganda é “prejudicial” ao seu trabalho.

Em resposta ao pronunciamento de Bopprè e Miagusko, Heloísa Helena, declarou, no final da tarde desta sexta-feira (26), que o site foi retirado do ar propositalmente para evitar que partes da legenda o utilizem para a promoção da candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, preterindo outros candidatos. Segundo Helena, a página “deveria funcionar por acordo, por consenso, respeitando (…) a pluralidade interna, com isonomia e proporcionalidade”.

Nos próximos dias, o site deverá voltar ao ar e será administrado por José Luiz Fevereiro, membro da direção nacional do PSOL.

*Colaborou Ana Ignácio

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http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,apoio-informal-de-heloisa-helena-a-marina-silva-constrange-psol,568770,0.htm

Apoio informal de Heloísa Helena a Marina Silva constrange PSOL

A decisão da presidente PSOL embaraçou o partido, já que tem como candidato Plínio de Arruda Sampaio

18 de junho de 2010 | 19h 41

Carol Pires, do estadao.com.br

Ao defender a candidatura da senadora Marina Silva (AC) à presidência da República pelo PV, a presidente do PSOL, Heloísa Helena (AL), causou constrangimento ao partido, que tem como candidato Plínio de Arruda Sampaio.

Heloísa Helena foi lançada, nesta sexta-feira, candidata ao Senado pelo PSOL em Alagoas. “Todos sabem, porque não sou hipócrita nem dissimulada, que o meu partido tem um candidato”, disse a dirigente do PSOL a repórteres que acompanharam o evento. “Mas eu não vou negar a importância que Marina tem, não apenas pessoalmente, no meu coração, mas por ser a grande chance que o Brasil tem de promover um debate sério sobre o desenvolvimento econômico sustentável com responsabilidade social”, ponderou.

No Twitter, o candidato a presidente Plínio de Arruda Sampaio disse que, se tiver declarado apoio a outro candidato, Heloísa não pode continuar à frente do PSOL. “A direção nacional se reunirá para discutir as declarações atribuídas a Heloísa Helena, que se especializa em criar constrangimentos ao PSOL”, publicou o candidato, numa primeira mensagem. “Se Heloísa tiver declarado apoiar outra candidatura, não pode seguir na presidência do PSOL por não defender a política do partido”, disse em outro comentário.

Ao comentar as declarações de ambos, o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) disse que Heloísa Helena precisa ser cobrada a manifestar apoio “de corpo e alma” ao candidato do partido, mas negou que houvesse espaço dentro da legenda para um possível movimento para tirá-la da presidência.

“A Heloísa é a Heloísa. É uma pessoa muito sentimental, visceral, e às vezes isso é prejudicial”, disse Alencar. “Heloísa tem uma personalidade absolutamente peculiar, por isso não devemos perder energia com isso. Ela foi eleita presidente por unanimidade, porque é a figura política mais forte do partido”, completou.

O PSOL tentou negociar apoio à candidatura de Marina Silva à presidência, mas as negociações foram interrompidas após Fernando Gabeira (PV), candidato ao governo do Rio de Janeiro, ter fechado aliança com o PSDB e o DEM. Quando o PSOL decidiu lançar candidato próprio, Heloísa Helena apresentou Martiniano Cavalcante como pré-candidato, mas o partido acabou aprovando o nome de Plínio de Arruda Sampaio para disputar a corrida presidencial.

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Fala do Prof. Vladimir Safatle sobre distinções políticas:

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http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4736984-EI6578,00-Manifesto+a+Nacao.html

Sexta, 15 de outubro de 2010, 13h52  Atualizada às 15h54

Manifesto à Nação

Plínio de Arruda Sampaio
De São Paulo

Para Plínio, voto nulo é “um claro posicionamento contra o atual sistema e a manifestação de nenhum compromisso com as duas candidaturas”

Para os socialistas, a conquista de espaços na estrutura institucional do Estado não é a única nem a principal das suas ações revolucionárias. Em todas estas, os objetivos centrais e prioritários são sempre os mesmos: conscientizar e organizar os trabalhadores, a fim de prepará-los para o embate decisivo contra o poder burguês.

Fiel a esta linha, a campanha do PSOL concentrou-se no tema da igualdade social, o que possibilitou demonstrar claramente que, embora existam diferenças entre os candidatos da ordem, são diferenças meramente adjetivas.

Isto ficou muito claro diante da recusa assustada e desmoralizante das três candidaturas a firmar compromissos com propostas de entidades populares – como a CPT, o MST, as centrais sindicais, o ANDES, o movimento dos direitos humanos – nas questões chaves da reforma agrária, redução da jornada de trabalho sem redução salarial, aplicação de 10% do PIB na educação, combate à criminalização da pobreza.

Não há razão para admitir que se comprometam agora, nem para acreditar que tais compromissos sejam sérios, como se vê pelo espetáculo deprimente da manipulação do sentimento religioso nas questões do aborto, do casamento homossexual, dos símbolos religiosos – temas que foram tratados com espírito público e coragem pela candidatura do PSOL. Nem se fale da corrupção, que campeia ao lado dos escritórios das duas candidaturas ora no segundo turno.

Cerca de um milhão de pessoas captaram nossa mensagem. Constituem a base de interlocutores a partir da qual o PSOL pretende prosseguir, junto com os demais partidos da esquerda, a caminhada do movimento socialista no Brasil.

O segundo turno oferece nova oportunidade para dar um passo adiante na conscientização. Trata-se de esmiuçar as diferenças entre as duas candidaturas que restam, a fim de colocar mais luz na tese de que ambas são prejudiciais à causa dos trabalhadores.

O candidato José Serra representa a burguesia mais moderna, mais organicamente ligada ao grande capital internacional, mais truculenta na repressão aos movimentos sociais. No plano macroeconômico, não se afastará do modelo neoliberal nem deterá o processo de reversão neocolonial que corrói a identidade moral do povo brasileiro. A política externa em relação aos governos progressistas de Chávez, Correa e Morales será um desastre completo.

A candidata Dilma Rousseff é uma incógnita. Se prosseguir na mesma linha do seu criador – o que não se tem condição de saber – o tratamento aos movimentos populares será diferente: menos repressão e mais cooptação. Do mesmo modo, Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia continuarão a ter apoio do Brasil.

Sob este aspecto, Dilma leva vantagem sobre a candidatura Serra. Mas não se deve ocultar, porém, o lado negativo dessa política de cooptação dos movimentos populares, pois isto enfraquece a pressão social sobre o sistema capitalista e divide as organizações do povo, como, aliás, está acontecendo com todas elas, sem exceção.

O que é melhor para a luta do povo? Enfrentar um governo claramente hostil e truculento ou um governo igualmente hostil, porém mais habilidoso e mais capaz de corromper politicamente as lideranças populares?

Ao longo dos debates do primeiro turno, a candidatura do PSOL cumpriu o papel de expor essa realidade e cobrar dos representantes do sistema posicionamento claro contra a desigualdade social que marca a história do Brasil e impõe à grande maioria da população um muro que a separa das suas legítimas aspirações. Nenhum deles se dispôs a comprometer-se com a derrubada desse muro. Essa é a razão que me tranqüiliza, no diálogo com os movimentos sociais com os quais me relaciono há 60 anos e com os brasileiros que confiaram a mim o seu voto, de que a única posição correta neste momento é do voto nulo. Não como parte do “efeito manada” decorrente das táticas de demonização que ambas candidaturas adotam a fim de confundir o povo. Mas um claro posicionamento contra o atual sistema e a manifestação de nenhum compromisso com as duas candidaturas.

Plínio Soares de Arruda Sampaio, 80 anos, é advogado e promotor público aposentado. Foi deputado federal por três vezes, uma delas na Constituinte de 1988, é diretor do “Correio da Cidadania” e preside a Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA

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http://www.revistaforum.com.br/noticias/2010/10/25/neutralidade_pela_consolidacao_do_socialismo/

Neutralidade pela consolidação do socialismo

Em entrevista exclusiva à Fórum, Plínio de Arruda Sampaio reitera sua posição pelo voto nulo no segundo turno, fala sobre sua relação com Heloisa Helena e analisa as possibilidades de avanço do socialismo no cenário político brasileiro.

Por André Rossi

25 de outubro de 2010 – 12h19

Plínio de Arruda Sampaio recebeu Fórum em sua casa para uma entrevista, em que o ex-presidenciável do Psol falou sobre o segundo turno, sua relação com Heloisa Helena e as possibilidades que enxerga para o socialismo. Ele reafirmou sua opção pelo voto nulo, distintamente de membros de seu partido que optaram pelo voto em Dilma. “Proponho voto nulo porque acho que o importante na campanha eleitoral da esquerda é a conscientização. E nesse caso, preciso conscientizar a massa de que nenhum dos dois candidatos traz solução em hipótese nenhuma.” Leia a íntegra da entrevista abaixo.

Fórum – Qual a saída da esquerda para atingir um papel de protagonismo no processo político brasileiro. Por que, desta vez, não houve a reedição da Frente de Esquerda com PSTU e PCB como na eleição passada?

Plínio de Arruda Sampaio – A esquerda não tem condições de assumir um papel protagonístico a curto prazo. Isso só poderá ocorrer dentro de uma ou duas décadas, no mínimo. Ela está totalmente dividida e a população brasileira está totalmente extasiada diante de uma farsa. Isso é um problema de mentalidade, que não é fácil de mudar a curto prazo.

A reedição da Frente de Esquerda não foi possível primeiro porque o meu partido demorou muito para tomar a decisão sobre a candidatura e isso dá uma impressão de hegemonismo em relação aos outros partidos, o que é inaceitável. Sendo assim, eles não toparam, e até certo ponto eu os desculpo e os justifico. Mas foi um equívoco brutal, porque se tivéssemos estado unidos, o PSTU teria feito seu primeiro deputado federal. Foi um erro grave e pretendo ver se conseguimos mudar agora.

Fórum – O senhor falou em farsa…

Plínio de Arruda – É a farsa de que temos um Brasil melhorando, sólido e consolidado no exterior. Fui entrevistado por uma rede de televisão espanhola que ficou surpresa quando eu disse isso, pois o Lula era muito bem recebido nas esferas internacionais, o país tinha prestígio e não era mais considerado subdesenvolvido. Eu disse que era claro, porque nosso país tem o governante que o imperialismo pediu a Deus, porque ele cede tudo. Então ele (Lula) é louvado mesmo, pois é um bobão.

E aqui dentro, o homem que compra uma geladeira acha que virou de classe média e não está vendo que o filho dele está ultra mal educado. Não há escola que preste e o sistema de saúde é um horror. Então isso que é uma farsa.

Fórum – Qual é o legado que o Psol deixa com essa participação nas eleições presidenciais?

Plínio – Eu acho que ele deixa um legado importante e isso está sendo reconhecido. Em 1998, propus ao Lula um discurso de campanha exatamente igual ao que fiz nessas eleições. Disse que naquele momento ele não tinha condições de ganhar nem de fazer uma política protagonística. Então, que aproveitasse o período eleitoral, onde nós tínhamos a televisão para fazer o debate, para dizer a verdade: o capitalismo não soluciona e s sociedade tem que ir para o socialismo. Falei também que ele não seria compreendido, pois se tratava de uma ideia nova que chocaria as pessoas. Mas na hora em que a sociedade verificasse as falácias do sistema, elas começariam a olhar para a nossa alternativa.

Na Segunda Guerra Mundial, quando Charles de Gaulle, general do exército francês, conclamou os franceses a derrotar os alemães, todos consideraram uma alternativa impossível e compraram a teoria do Marechal Pétan, que propôs acertar com os alemães para que o prejuízo sobre o país fosse menor. Se houvesse uma eleição no dia em que de Gaulle fez o apelo, perdia de longe. Ele ficou isolado com essa ideia. Mas na medida em que os alemães foram tornando insuportável a vida dos franceses, foi ficando claro que sua medida era necessária.

Mesma coisa o Churchill. Ele foi à Alemanha em 1933, onde viu a ascensão do Hitler. Então voltou para a Inglaterra e disse que o exército alemão estava se armando e iria investir contra seu país. Na Inglaterra, a tese do armamento não era aceita e ele perdeu todos os seus lugares no Parlamento e foi escamoteado de seu partido, até o momento em que ficou evidenciado que o Hitler ia atacar a Inglaterra. Ele conta em seu livro que, nessa hora, ficou ao lado do telefone porque sabia que o Rei ia chamá-lo para ser o primeiro-ministro do país.

Então disse ao Lula para ele plantar, que daqui a uma, duas, três eleições a sociedade estaria pronta para entendê-lo. E isso foi feito por nós só agora, numa circunstância mais difícil, porque o Lula é uma figura conhecida. Sou um político que venho de muito longe e já estou numa condição mais lateral, longe do foco da mídia. Mas está feito e daqui por diante nós vamos trabalhar isso.

Fórum – Como o senhor acredita que o partido pode reconstruir a ideia de socialismo no Brasil? Existe algum modelo que possa ser seguido?

Plínio – Esse é outro problema: não temos modelo, porque o modelo soviético, evidentemente, não podemos e não queremos reproduzir. Então temos que inventar um socialismo do século 21, com liberdade. Acho que a maneira de fazer isso é trabalhando pequenos núcleos de base, sem pressa de crescer. A revolução não é o partido que faz e sim o povo. E o faz de acordo com a sua hora e com seus movimentos internos, que dificilmente o político consegue captar.

As insurreições sempre surpreendem os políticos. Surpreendeu inclusive um homem atiladíssimo como Lenine, que não esperava pela erupção da Revolução Russa de 1917, e no entanto acabou como chefe de governo.

Então esse é o desafio que está colocado para os partidos de esquerda: construir um movimento na base, pequeno e sem aspecto de massa. E quando houver uma explosão nós estaremos preparados para ter uma palavra.

Fórum – Como o senhor viu o afastamento de Heloisa Helena da presidência do Psol? Como estão suas relações com ela hoje?

Plínio – Foi lastimável. Ela se apartou da base do partido, que votou em mim, e não soube reconhecer a derrota e passar por cima disso. Levou muito para o lado pessoal.

As minhas relações com ela são curiosas. Na campanha eleitoral fiz apelo em seu favor, de modo que eu não tenho nenhuma animosidade com ela. Não levo política para o lado pessoal nunca. Discordei de uma posição dela num episódio específico. Posso concordar com a Heloisa em dez mil coisas depois, mas isso vai ser decidido agora pelo diretório nacional do partido.

Fórum – O senhor fez várias declarações perto do fim do primeiro turno, inclusive no dia da votação, acreditando que haveria um segundo turno. No entanto, sua opção foi pelo voto nulo. Assim, como o senhor vê a importância de haver um segundo turno?

Plínio – Proponho voto nulo porque acho que o importante na campanha eleitoral da esquerda é a conscientização. E nesse caso, preciso conscientizar a massa de que nenhum dos dois candidatos traz solução em hipótese nenhuma. De modo que, se eu votar em um, estarei enfraquecendo todo o discurso de que nenhum dos dois candidatos defende os mesmos interesses que eu defendo.

Fórum – Como o senhor vê o predomínio das questões morais neste segundo turno? Isso representa um retrocesso no debate político?

Plínio – Isso representa um pedágio que estão pagando ao fundamentalismo religioso, ao atraso e ao patrulhamento das opiniões. É vergonhoso e lastimável. O Boechat (Ricardo Boechat, jornalista) chamou os dois de “idiotas” e acho que ele tem toda razão.

Fórum – Sobre a questão do meio ambiente, uma vez o senhor disse que a preservação da natureza não é concebível no modelo capitalista. Porque não é, e porque o socialismo permitiria isso?

Plínio – Esse é o meu grande debate com a Marina. Para o capitalismo, a maior prioridade é lucro. Os capitalistas defendem a natureza, têm código florestal, institutos. Mas na hora em que a defesa da natureza impede a acumulação de capital, a acumulação prevalece e a defesa da natureza não, tanto que a devastação contra o meio ambiente só aumenta.

Para nós, socialistas, a defesa da natureza é mais importante que a acumulação de capital. E numa contradição entre um sistema e outro, nós socialistas somos pela redução da acumulação de capital, defendendo a natureza.

Fórum – Após as eleições de 2010, o que, na sua opinião, deve mudar na estratégia do Psol para as eleições municipais de 2012?

Plínio – Nós vamos estar na oposição. É difícil dizer isso agora, pois é preciso ver a conjuntura após a posse do novo governo. É a posse do novo governo que vai ditar para nós qual é a solução. Podemos partir só com a esquerda pura para fazermos mais um testemunho, ou podemos fazer alianças, dependendo sempre do critério de o que conscientiza mais o povo.

Se a conscientização vislumbrar uma aliança com forças capitalistas nós faremos, porque aliança você não faz com um igual e sim com um diferente. Com um igual você faz sociedades, parcerias.

Quando o Mao Tse-tung raptou o Chiang Kai-chec (militar e político de um partido conservador na China), ele propôs para ele um acordo de juntos combaterem os japoneses e suspenderem as hostilidades entre os dois. Ninguém admitiu que um estava aceitando a tese do outro. Mesma coisa o Churchill, quando ele se aliou ao Stalin para deter o nazismo. Ninguém imaginou que um havia virado socialista e Stalin capitalista.

Então na eleição para a prefeitura, nós podemos fazer acordos, dependendo da análise da situação concreta que estiver posta na hora do processo eleitoral.

Fórum – O senhor esteve bastante presente na internet. Como o senhor avalia a importância da rede no processo eleitoral em geral?

Plínio – Acho que o Twitter substituirá a televisão como principal instrumento de propaganda política nas próximas eleições. É um instrumento extraordinário. Fiz uma videoconferência no Twitter para acompanhar o primeiro debate do segundo turno e 10 mil pessoas acompanharam e interagiram comigo, fazendo perguntas e participando. Não consegui fazer na campanha eleitoral nenhum comício com esse número de pessoas, pois o custo para se fazer um comício desse tamanho é brutal. E para a esquerda tem uma importância vital porque é de graça.

Com 140 toques dou a essência e remeto ao meu site, onde eu deposito um artigo sobre o assunto debatido. Muitas vezes as pessoas respondem na hora, sugerindo que eu mude algum argumento porque ele está ruim, e eu noto que está ruim mesmo e mudo na hora.

Fórum – Embora o senhor tenha optado pelo voto nulo, boa parte do Psol optou pelo voto em Dilma no segundo turno. Existe possibilidade de se discutir um apoio a um possível governo petista?

Plínio – Não, em hipótese nenhuma. O Psol estará na oposição ao PT. Não senti na reunião do partido nenhuma voz favorável à aliança. Isso é consensual e unânime no nosso partido.

Fórum – Nos debates eleitorais, o senhor optou por adotar uma postura combativa contra os dois principais candidatos. Por quê?

Plínio – Optei por dizer a verdade. Isso me colocou em antagonismo a eles e não fugi, muito pelo contrário. Procurei marcar essa diferença e isso criou o debate e acho que foi uma contribuição.

André Rossi
Plínio ao folhear a edição de outubro da Revista Fórum. Para ele, o país vive uma farsa política com o governo Lula.

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Entrevista ao Jornal do Brasil, na qual ele afirma que o projeto do Serra seria preferível:

http://jb.digitalpages.com.br/home.aspx?edicao=20101103&pg=02

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